Marília Orange

Severino Vicente da Silva

Esta semana fui impactado com a notícia da ressureição de Marília Orange, uma personagem, uma pessoa importante em minha vida, desde a nossa adolescência. Ela, sua mãe Hortênsia, seu irmão Valdo, a querida Sônia, sempre me acolheram com simpatia e carinho. Sua casa foi sempre um lugar onde encontrei amor. Marília surpreendeu a todos nós quando ele decidiu viver com o seu amor. Seu gesto nos deixou confusos, não sabíamos o que dizer, pois ela rompeu os caminhos que nos haviam ensinado. Lembro dos assustados que fazíamos, festas na casa de Vavá que ficava quase em frente da igreja matriz de Nova Descoberta. E Ninha tinha consciência do seu gesto.

Ninha dedicou parte de sua vida em olhar a administração pública, como servidora atenta, honesta, digna e respeitadora do contrato que assinou com o povo brasileiro de servi-lo. Os bons funcionários são anônimos, pouco conhecidos, mas sem eles o Estado não se manteria servindo ao povo, pois os que chegam a dirigir o Estado, não por concurso e sim por indicação, quase sempre agem em benefício próprio. Em sua vida pessoal, anos depois, sim depois de separar-se de seu amor, Marília voltou a casar com o amor de sua juventude, voltou a viver com ele até o fim dos seus dias.

Entre os muitos momentos que encontrei Ninha, foi na Secretaria de Educação do Município do Recife, quando fiz concurso para professor, mas foi parar na Diretoria de Projetos Especiais da Secretaria, e depois na presidência da Fundação Educar – antigo MOBRAL – com a incumbência de torna-la diretoria de Educação de Jovens e Adultos. Tarefa realizada, fui seu primeiro diretor. Após a mudança de prefeito, por ser o único diretor concursado na prefeitura, os demais estavam ligados à UFPE para onde voltaram, no último dia do governo que saia, fui posto à disposição da Prefeitura de Olinda, onde deveria assumir cargo semelhante, o que não ocorreu por questões político partidária. Então fui convidado a assumir uma assessoria na Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, quando participei do grupo de trabalho que deu início a Educação Indígena, o que me deu a oportunidade de visitar as escolas indígenas. Minha chefe era a professor Elizabeth Varjal. Nesse período recebo um recado de Marília e fui ao Departamento de Pessoal da Secretaria de Educação do Município do Recife, e soube que iria ser exonerado pois os que que me levaram à Secretaria Estadual não haviam comunicado ao município a minha transferência de Olinda para a SEC de Pernambuco. Meu anjo, na forma de Ninha evitou essa enorme crise em minha vida. Ela sorriu e disse que eu deveria tomar conta de mim e não acreditar em tudo que as pessoas me diziam, que eu deveria checar as informações, pois sempre haveria pessoas que prejudicam outras por razões políticas, religiosas ou mesmo por que não desenvolveram bom caráter. Foi mais um momento que Marília tomou conta de mim.

Marília ressuscitou no primeiro dia de aula deste semestre e o horário do sepultamento de seu corpo coincidiu com a aula. Mesmo assim tentei chegar ao Parque das Flores, mas as obras na BR e o acampamento de maus cidadãos que não reconhecem o resultado das urnas, sob a proteção de um exército que esqueceu sua função: defender as instituições, não me permitiram chegar e me despedir de minha amiga, de meu anjo protetor, de que cuidou de mim em momento difícil de minha vida. Este depoimento é para dizer a Marília, à Sônia, a Valdo e a dona Hortênsia (em memória), o quanto eu devo a cada um de vocês, cada um à sua maneira, e que eu terei, até a minha ressureição, guardado em minha memória Ninha e cada um de vocês. Sônia, eu amo vocês.

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