Independência a ser conquistada

Descolonizar a independência

Prof. Severino Vicente da Silva

Passaram-se quinze dias dos festejos do bicentenário da Independência do Brasil, em sua relação com Portugal, sua antiga metrópole dominadora e colonizadora. Tal celebração teria que ter sido de grande júbilo e, contudo, passou com um gosto amargo, diversos amargores e uma pequena dose de mel, nos foi dada pelo presente.

Celebrar duzentos anos de um acontecimento é, principalmente voltar ao passado, ou a vários passados, pois que não há um só. Foi assim que este Sete de Setembro, lembra os Sete de Setembro do passados. Ouvimos várias discussões sobre o que “realmente” aconteceu no final da tarde de 1822; discutimos sobre quem foram os personagens naquela tarde; debatemos sobre a atuação da Princesa Regente que, antes do marido, entendeu de declarar o Reino do Brasil separado definitivamente do Reino de Portugal, recém libertado do domínio inglês; também houve debates, mas em menor número, sobre a atuação de José Bonifácio, o sábio ministro que escrevera a Carta às Nações, denunciando o projeto de recolonização posto em andamento pela Assembleia Constituinte portuguesa; até mesmo houve quem lembrasse que o famoso quadro do Grito do Ipiranga foi pintado anos depois do acontecimento e, foi realizado para enaltecer a figura do primeiro imperador do Brasil, que perdeu o lustro desde que fechou a Assembleia Constituinte brasileira, apontando os limites que seriam trilhados pelos liberais brasileiros. Aproveitou-se a oportunidade para mostrar que quem pagou pela pintura não queria negros no quadro, e artista os colocou saindo pelo alto e à esquerda, mais abaixo o povo que trabalha e, no centro, os que usam farda e governam.

Uma quase novidade foi a luta travada por intelectuais de diversas partes do Brasil para mostrar que sem a sua participação não teria havido independência. Uma grande questão que ainda está a ser resolvida é onde foi proclamada a independência. A maior tradição diz que foi em São Paulo, como está na arte de Pedro Américo e nos inumeráveis livros didáticos escritos a partir do que foi definido no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, com sede na Corte Imperial, no Rio de Janeiro, uma vez que São Paulo ainda não tinha a estrutura necessária para tal função, nem fora levado a sério o projeto bonifaciano de colocar a capital no centro do Brasil. Esperou-se 139 anos para que um mineiro realizasse o sonho do Patriarca da Independência. O Brasil que surgiu em 1822 tem essas coisas, tem um Patriarca, mas não tem Matriarca.

Mas onde ocorreu a Independência? Quem a fez? Os pernambucanos, agora dizem que foram eles, na Convenção de Beberibe, em outubro de 1821, quando as Juntas Governativas de Goiana, Cabo e Olinda, se levantaram contra a autoridade militar portuguesa e a forçaram a admitir que não tinha mais controle sobre a província. As Câmaras eram formadas pelos “homens bons”, na sua maioria senhores de engenhos e escravos e alguns comerciantes. Por questões de prestígio e vaidades que poderiam dificultar a unidade do movimento, escolheram o comerciantes Gervásio Pires Ferreira para presidir a província liberta, não de Portugal, pois o Brasil já era um Reino, um Estado reconhecido pelas nações do mundo, mas do Rio de Janeiro, que era o centro do Reino, regido pelo príncipe Pedro de Alcântara, sempre fiel ao seu pai. Claro que as razões dessa escolha não estão escritas em nenhum documento, mas nos fatos, pois algum tempo depois, alguns ‘nobres’ da vila de Goiana fizeram acordo com o Patriarca que levaram à deposição e prisão de Gervásio Pires, finalmente entregue às Cortes de Portugal. Assim, Em Pernambuco há a glória de ser o primeiro território brasileiro sem governo português, mas abdica dessa honra para que se consolide a independência pensada por José Bonifácio. E o rio Beberibe desaguou no riacho Ipiranga. Essa parte final não aparece nos livros de história nem nas celebrações que Pernambuco não realiza.

À medida que o Brasil avança no processo de educar-se, de conhecer seu passado, começa a entender que a sua história não ocorre apenas na beira do mar, mas nos sertões, no seu interior. A cada ano escutamos mais sobre a Batalha do Jenipapo, ocorrida entre o Piauí e o Maranhão. O governo do Maranhão, por razões explicáveis pelo processo de colonização portuguesa sempre manteve pouca relação com os governos da colônia, habituando-se a relacionar-se diretamente com Lisboa. Essa circunstância explica a forte relação com Portugal e a sua adesão de sua elite às Cortes lusitanas, o seu rechaço à separação. De Oeiras sai o clamor pela independência, mais aceita pelos camponeses, pelos sem-terra, pelos pobres mulatos, outros mestiços e negros, e eles enfrentaram, com suas foices, enxadas, facões ancinhos e seu corpos. cerca de 1500 soldados bem armados. Sim foram massacrados, mas feriram de tal forma o exército português, que forçou, algum tempo depois, a rendição. Mas as elites de São Luís tiveram que enfrentar a marinha que o Imperador enviou para lá.

Quem sempre discute a sua importância crucial e definitiva para a “independência do Brasil” é a Bahia, que sempre festeja com orgulho e alegria o dia 2 de julho, com o desfile do caboclo, dos negros, das mulheres -Maria Quitéria e Maria Angélica, uma camponesa e outra freira. Sempre haverá alguém para dizer que essa independência é tardia, só ocorreu em 1823. Mas, dirão os baianos, aqui houve guerra contra uma comunidade portuguesa bem estabelecida e apoiadora do exército e, contudo, eles foram derrotados e, dessa maneira fechou-se o ciclo da independência política, que ainda necessitará de uma prova de amor do imperador do Brasil para o Reino de Portugal, o acordo de 1827.

Como se vê, luta-se pelo passado. Alguns pelo passado bem morto, como a inciativa de se buscar para um passeio de 10 dias em terras brasileira, o coração do rei Dom Pedro IV de Portugal, retirando-o da cidade do Porto, local de sua preferência e de onde não deveria ter saído. Saiu de lá para cumprir um ritual desejado porque pouco sabe da história do Brasil e, como os colonizadores, dedica-se a retirar o máximo que pode dos pobres. E buscam dominar o passado para que ele seja o seu futuro, pois jamais abandonaram o tempo de colônia portuguesa, quando colaboravam com a escravidão, com a cobrança do Quinto, quando traiam Tiradentes, Abreu e Lima, Manuel Faustino, Gervásio Pires e tantos outros, para continuarem a despojar o povo, deixá-lo morrer de fome, sem remédio, sem casa, sem nada. Vivem o presente como se estivessem no passado, pois é este o futuro que querem para si.

E nas celebrações da “independência do Brasil”, podemos encontrar aqueles que sabem que não houve independência, não houve separação, pois a mentalidade colonial e escravista está presente nas elites, e por terem essa consciência que a história, a sua história de vida, eles continuam construindo a independência, a liberdade. Assistimos os descendentes morais de Silvério dos Reis, abraçados com a bandeira brasileira, mas também com a dso Estados Unidos da América e, não consigo entender o porquê, com a bandeira de Israel. Olhamos para eles e nos vem a voz de Castro Alves, em prantos, clamar: “antes te houvesse roto nas batalhas que servires a um povo de mortalha”. Sim, sei que as escolas estão organizadas a não lerem esses versos, e outros. Esse Grito dos Excluídos, esse poético, é o presente que anuncia o futuro, como anunciou o fim da escravidão. Não, é necessário construir um sete de Setembro, que pode continuar como um divertimento para os que gostam e brincaram de soldadinhos de chumbo, essa brinquedo das guerras do século XIX, o necessário e o que está sendo feito, é continuar a invenção da liberdade, da independência dos falsos líderes, das nações falsas e excluidoras.

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