Olinda, Patrimônio da Humanidade

Prof. Severino Vicente da Silva

Então, a gloriosa cidade de Olinda, fundada por Duarte Coelho e Dona Brites Albuquerque, no longínquo século XVI, tem aniversário específico neste ano que o do bicentenário do Estado brasileiro. Da pequena vila crescida nas terras anteriormente ocupadas pelos Caeté, formou-se uma cidade e uma sociedade a partir da produção de açúcar de cana, uma atividade trazida da Ilha da Madeira, local dos primeiros experimentos portugueses na produção da especiaria que fez a riqueza de Portugal e de Olinda. No período inicial do declínio do império português, Olinda viu-se in vadida pelos holandeses, com os quais os portugueses mantinham relações comerciais e de amizade. Mas, a dedicação religiosa do rei Dom Sebastião permitiu que a coroa lusitana fosse arrebatada pelo império espanhol, então em guerra com os Países Baixos, que aceitavam a autoridade espanhola, desde que lhes fossem assegurada sua liberdade religiosa. Mas a política centralizadora de Felipe II levou à guerra. É nesta guerra que Olinda, então o maior centro urbano português na América, viu-se acossada e dominada pelos soldados contratados pela Companhia das Índias Ocidentais Holandesa, e teve parte de seu rico patrimônio destruído em incêndio. Pedras tiradas do casario de burgo olindense foram utilizados para construir novos espaços no Recife, então porto a serviço do comércio do açúcar, riqueza local e dos comerciantes holandeses.

Após a expulsão dos invasores, Olinda esforçou-se para voltar a brilhar, renovou seu casario, ocupou a colina onde estabeleceram-se os beneditinos, criou um palácio para os governadores, mas a riqueza encontrava-se no antigo porto, que crescia e sua sombra deitava-se sobre Olinda. Esvaziada, a cidade mantinha a sede do episcopado e sua catedral, o colégio dos jesuítas, mais tarde feito Seminário que recebia estudantes das capitanias vizinha. Carmelitas, franciscanos mantiveram suas casas em Olinda, embora cuidassem de estabelecer-se no Recife, que mais tarde tornar-se-ia cidade e capital da província, já no Império. Olinda continuava com suas procissões que atraiam os recifenses, e este lutavam para não precisarem deslocar-se até Olinda para os atos religiosos. O crescimento urbano criou condições para que os dois burgos realizassem seus atos de sociabilidade e de fé religiosa.          

Esses caminhos históricos favoreceram a preservação do patrimônio físico e espiritual da Marim dos Caeté. A quietude do tempo, das pessoas favoreceu que, apesar dos conflitos, Olinda mantivesse sua identidade colonial nos espaços das colinas. Tornou-se desde então local de repouso, de refrigério dos recifenses que passavam temporadas nas casas coloniais ou nos pequenos palacetes erguidos próximos às margens do rio Beberibe. Na segunda metade do século XX Olinda viveu uma expansão populacional e, em decorrência de questões políticas, acolheu muitos artistas plásticos que já encontravam espaços no Recife que perdeu parte do seu humor a partir de 1964. Olinda tornou-se uma festa permanente, e a recriação do carnaval deu um novo fôlego à cidade e uma nova visibilidade. Foi observado pelo poeta que “Olinda é só desejos, ninguém diz é lá que eu moro, diz apenas é lá que eu vejo”.

E o que se vê em Olinda? A história, desejos realizados ou não; vê-se o tempo passar lentamente, vê-se o tempo passando. Vê-se a história de um povo, de vários povos que formaram uma nação. Vê-se o desejo dos senhores de engenho em ter casas fortes e permanentes para que sua riqueza seja vista e admirada; em Olinda vê-se os caboclos a nos lembrar dos índios, os índios que viviam fora da cidade, lá para bandas de Guadalupe, perto da estrada que levava à Paraíba; vê-se o trabalho dos negros, africanos escravizados que serraram as madeiras para sustentar as casas dos homens e as casas que dizem ser de Deus. Em Olinda vê-se a história do “mundo que o português criou”, no dizer de Gilberto Freyre. Mas a Organização das Nações Unidas para a Ciência, Cultura e Educação viu que em Olinda é tangível a história da Humanidade.  Andar em Olinda é caminhar nos séculos anteriores e surpreender-se pensado o quanto custou construir e preservar, manter livre da possiblidade destruidora do mundo moderno, e pós-moderno. O moderno que tudo quer construir aos seu modo, destruindo os modos dos outros, e o pós-moderno dizendo que nada precisa ser conservado, pois tudo pode ser refeito e, para isso é necessário desfazer o feito.

É provável que nem todos moradores de Olinda, nascidos em Olinda ou os que a escolheram e foram acolhidos por ela, saibam que faz Quarenta anos que a UNESCO reconheceu que Olinda é um patrimônio da Humanidade e, ao reconhecer este fato, disse aos olindenses: vocês devem cuidar desse patrimônio para que os homens e mulheres que aqui não vivem, possam vir e compreender o que significam essas pedras, essas ruas, esses prédios residenciais, essas igrejas; esse patrimônio foi-lhes dado pelos seus ancestrais e cabe a vocês cuidar dele para que os nossos descendentes compreendam como o trabalho dos homens e mulheres, como os seus desejos, como as suas religiões, cada uma com os seus deuses cooperaram para que Olinda tenha a “paz dos mosteiros da Índia” e barulho das alegrias de todas as raças.

Cuidemos do nosso Patrimônio. Um deles, o Arquivo Público, está a definhar pela incúria dos que governaram e governam Olinda.

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