Alguns pensamentos sobre o carnaval

Alguns pensamentos livres sobre o carnaval

Severino Vicente da Silva

Parece não ser surpresa o quanto grande parte da população apresenta alguma frustração por não haver a permissão oficial para derramar-se no carnaval, festa que transpôs o Atlântico à época das reformas no cristianismo praticado na Europa. O que, à princípio seria um debate sobre os limites de algumas ações praticadas, permitidas e incentivadas pelo papado romano, à medida que eram explicitadas as reações os temas relacionados aos dogmas foram aparecendo e causaram mudanças nas maneiras de vivenciar a fé religiosa. Afinal, ainda que contrarie uma das teses apresentadas por Lutero em outubro de 1517, a fé sempre se apresenta em obras, sejam altruístas ou apenas para a satisfação de garantir a exposição da diferença. As reformas da religião marcaram a sociedade europeia pela afirmação das diferenças, e fortaleceram reis, estados, enquanto criavam novos modos de viver, e matavam outros.

Apesar do medo, a crer nas imagens deixadas por pintores flamengos, também havia muita diversão como pintou Bruegel, o velho, no período anterior às Guerras de Religião, período no qual homens e mulheres dedicavam-se à busca da salvação condenando o mundo. Embora os homens e mulheres do Medievo vivessem um “vale de Lágrimas”, um mundo de pestes, guerras e pecados, a vida parecia ser suportável amparada pela esperança do Paraíso. Com as Reformas, parece ter chegado uma religião que nega a possibilidade da esperança, pois tudo já está predestinado, inclusive a salvação. Entretanto, é necessário que se torne explícita a salvação já alcançada, não mais esperada; e a explicitação vem com uma maneira de viver abandonando os prazeres do mundo na certeza da alegria eterna. As brincadeiras deixam de ser importantes, os prazeres, os antigos e os descobertos recentemente em decorrência do comércio e das navegações, devem ser eliminados. Os Carnavais perdem para a Quaresma.

Mas o carnaval atravessa o Atlântico e descobre o paraíso, a Terra Sem Males. A visão da Reforma trazida pelos europeus, principalmente pelos jesuítas, foi ajustada pelos demais clérigos que serviam mais diretamente os moradores das vilas. Não se nega o pecado, mas abaixo do Equador, apenas os padres da Companhia o fazem com veemência, e depois, os pastores trazidos pelos holandeses, o percebem. Aqui parece se manter a compreensão católico-medieval, ainda que haja perseguição aos judeus e cristãos novos. Não há pecado, e, se os há, os atos de penitências e as procissões, momentos para a apresentação da inventividade de artistas locais, enriquecida com a lembrança das procissões anteriores às Teses de Lutero e as definições do Concílio de Trento. Às vezes elas são vistas como ridículas, como as que foram percebidas por Gregório de Matos. As teses luteranas e calvinistas tiveram que esperar o Regente Dom João e o Imperador Pedro II para terem presença e visibilidade social; quanto ao Concílio de Trento, só à véspera da República é que começa a ser implementado nas terras do Brasil, onde o carnaval fez morada.

As procissões e os entrudos sempre foram válvulas de escape em uma sociedade que a tudo reprimia em função dos interesses da Coroa, mas essa sociedade usou a criatividade na arte de burlar os interesses metropolitanos; foi apenas após o fim oficial da escravidão e, principalmente, a República que o carnaval tomou as ruas, lugar de expressão da liberdade. Na República oficial, os militares e advogados tomaram os palácios, mas o povo criou outra república nas ruas, nas principais capitais, e mesmo em algumas cidades de porte médio, fora do circuito do poder. Como o Hino da República, o carnaval diz: abre as asas sobre mim, ó Senhora Liberdade.  Assim, vive-se, nesses anos recentes, uma situação de lamento: mais um ano sem carnaval por causa da peste que tem o nome de Coronavirus19 e suas novas cepas. A saudade do carnaval, das ruas interditadas ao trânsito de automóveis, a permissão de embriagar-se publicamente, de sem pudor ou temor, criticar os grandes e pequenos poderosos, de mostrar o corpo e alma, poder ser visto nas redes sociais proporcionadas pela internet, uma vez que as redes tradicionais estão truncadas, mas são alimentadas pelos dispositivos mais modernos.

Neste ano, mais que no ano passado, ocorrerão bailes de carnavais em recintos fechados, em clubes dos que puderam acumular riquezas, como ocorria no final do século XIX, antes que o povo inventasse os desfiles de blocos, de clubes, escolas de samba, tomando as ruas para si. Este fenômeno levou as autoridades constituídas a tomarem medidas para controlar a folia dos menos ricos e dos pobres.

No século XVII a repressão, ou Reforma dos costumes, foi realizada tanto pelas autoridades religiosas quanto pelas autoridades civis, como demonstram os estudiosos do período. Foi essa associação que permitiu a vitória da Quaresma sobre o Carnaval, e também favoreceu a aceitação da ética do trabalho nas regiões reformadas, bem como o a vitória do indivíduo sobre os interesses sociais.

Neste início do século XXI, o Estado, que se fortaleceu ao longo de três séculos, enquanto defendia os interesses individuais e conseguia manter a coesão social dizendo ter em vista o interesse coletivo, tem encontrado dificuldade de fazer cumprir normas que defendam a sociedade da Covid19, exatamente porque alguns de seus membros, em nome dos interesses individuais, recusam, tanto a vacinação necessária para vencer o vírus como as normas de distanciamento social que antecede e acompanha o processo de superação a pandemia. É para acomodar interesses tão diversos e contrários que, simultaneamente proíbe o carnaval de rua, permite que alguns grupos possam carnavalizar em espaços restritos e de acesso apenas aos endinheirados. A Quaresma é para os pobres que, encontrarão um meio de burla, como historicamente tem feito.

A saudade do carnaval, a busca do prazer na dança da vida parece ser maior que o medo da Dança da Morte, um dos temas da pintura europeia a caminho dos novos tempos urbanos, quando as aldeias se encontram com mais facilidades e os europeus cruzam de novo o Atlântico em busca do passado.

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