Bicentenário da desconfiança

Bicentenário da desconfiança

Severino Vicente da Silva

O ano do bicentenário da independência do Brasil parece que vai passar despercebido da maioria dos brasileiros, sejam os que fazem seus trajetos até os postos de trabalho em ônibus lotados, sejam os que dirigem seus automóveis provocando imensos engarrafamentos nas avenidas largas, construídas para seus prazeres e gaudio das montadoras (aqui chamadas de fábricas), ou mesmo para os políticos que voam sobre o território em voos pagos pelos contribuintes. As eleições que ocorrerão no mês de outubro, um mês após o aniversário do Estado, chamam mais atenção, especialmente dos meios de comunicações que fazem de tudo para animar o eleitor, que é também o cansado contribuinte e o desconfiado cidadão.

Tendo sido tocado pelos europeus no início do tempo que a historiografia brasileira tradicional chama de Moderno, a Terra Sem Males, vem sendo agravada desde então pelos mais diversos males. O primeiro deles foi o esforço para dizer que haviam, em abril de 1500, descoberto uma terra que sabiam de sua existência já a algum tempo, a primeira mentira. Depois vieram outras, como dizer que os povos que aqui moravam “não tinham lei, não tinham fé, nem tinham rei”, negando as formas de organizações familiares e sociais, as crenças em suas divindades e a autoridade dos que mantinham a vida social das diversas nações. Foram os primeiros negacionismos. Em diversos momentos, na luta pelo domínio da terra, os europeus viram-se obrigados a fazer acordos com os habitantes primevos, mas logo depois os renegavam, como aconteceu no que a historiografia chama de Guerra dos Bárbaros, traindo Junduí e seu povo. Aliás, não sem razão há, no Nordeste, uma baia apelidada de Traição, mas poderia ser uma baia qualquer na orla do litoral paulista ou fluminense, conforme se sabe da guerra contra os Tamoios, que ainda hoje se diz que foi para expulsar os franceses que já não mais estavam na região. E o que dizer de Ganga Zumba, que assinou tratado e, abandonando Palmares, foi morar em Cucau, em Serinhaém, e via suas terras sendo atacadas com a desculpa de que estaria escondendo escravos fugidos. A história da ocupação europeia veio sendo esculpida com bastante mentiras e simulações.

Mesmo no período imediato da independência, sabemos da armação que os irmãos Andrada (José Bonifácio, Francisco Martin e Antônio Carlos) contra o governador Gervásio Pires Ferreira, de Pernambuco, enviando alguns provocadores para insuflar o “povo”. Mas essa história envolve gente da terra e, talvez por isso, o nome de Gervásio Pires, comerciante, esteja esquecido enquanto senhores de engenho são lembrados e louvados.

Uma pesquisa um pouco mais profunda, acompanhada com uma análise menos varandística, mostrará outras simulações, outras investidas contra a confiança dos mais pobres na formação do Brasil, como as cartas falsas em campanhas políticas, documentos fraudulentos que justificaram golpes e ditaduras, manchetes de jornais informando sobre “armas e exércitos de comunistas”, documentos feitos por encomenda para acusar presidentes, e, mais recentemente, a ideia de que tomar vacinas levará a transformação em jacaré ou tornará o vacinado em aidético. Nos anos setenta do século passado, tentaram convencer a sociedade de que Dom Hélder andava com armas escondidas na batina. Sempre há alguns muitos que acreditam e, depois, envergonhados quando descobrem que foram enganados, calam-se para esconder o ridículo em que se meteram e o mal que fizeram “sem intenção”.

Olhando essa história, penso que fomos criados, como Nação e como Estado, sob a liderança de mentirosos. Interessante que, na análise feita por Alain Peyrefait, politico e intelectual conservador francês, sobre a formação do mundo moderno, está a defesa de que este mundo só ocorre por conta da confiança. Ele se refere à confiança necessária nas transações econômicas, financeiras que possibilitaram a criação da sociedade europeia moderna. Efetivamente ele não se refere ao comportamento dos europeus com os povos asiáticos, africanos, indígenas e australianos. A confiança foi sempre cultivada entre os europeus em suas transações financeiras, ressalvando o comportamento dos piratas, dos bucaneiros e corsários a serviço de algum rei em detrimento dos interesses dos demais.

Essas ideias começaram a fluir após ter lido que o Banco Internacional do Desenvolvimento – BID dizer que a confiança pode ser um pilar fundamental para o desenvolvimento das nações. Em seu estudo o BID aponta que apenas 4,69% dos brasileiros confiam, mantem a confiança em seus companheiros de sociedade. Dito de outra forma, 95,31% dos brasileiros vivem não acreditando em seus vizinhos, seus professores, seus médicos, seus comerciantes, seus chefes, seus representantes políticos, seus líderes sindicais, seus colegas de trabalho, nos governadores e seus secretários, nos ministros do presidente nem no homem que escolheram para presidir, gerenciar o Brasil. Sendo verdadeira a conclusão do BID, o aniversário de 200 anos do Estado brasileiro não terá sabor de festa.

Mas haverá festa. Festejar-se-á com falsa alegria e com falso orgulho, mas será apenas por amor-próprio. Assim como se festeja o fim das senzalas enquanto se criam favelas; assim como há o esforço de lembrar Frei Caneca, mas sem aprofundar a análise do que e quem o levou ao cadafalso; assim como se louvam os senhores de engenho que ‘livraram’ Pernambuco dos holandeses e se esquece que, logo em seguida, vieram a destruição do Palmares, a traição aos Bárbaros; mas agora se louva os holandeses enquanto os sobreviventes indígenas são mortos como ‘bichos’ e se nega o valor de suas lutas na defesa de suas terras, as lutas do passado e as lutas atuais. Os brasileiros não confiam na história que dizem ser sua, pois eles não são informados de como foram explorados no passado, mas sabem disso, pois essa história está no coletivo, inconsciente. Não podendo ser dita, aparece nessa descrença, nessa falta de confiança, pois como acreditar que faz parte de um Estado que o rejeita; que cria leis que o impede de ter acesso a escola que conte a sua história; que o impede receber benefícios sociais mínimos enquanto juízes e outros recebem prebendas crescentes; como acreditar que faz parte de um país com tantos bilionários enquanto morre de fome?

O Brasil parece sem futuro porque as suas elites (econômica, financeira, intelectual, religiosa, política) prefere manter o conceito de que a sociedade brasileira se resume a 1/3 de sua população. E o povo sabe que esse 1/3 não merece confiança.

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Pires, Maria Idalina Cruz. A Guerra dos Bárbaros: resistência e conflitos no Nordeste colonial

A sociedade de Confiança

Ensaio Sobre a Origem e Natureza do Desenvolvimento

Alain Peyrefitte

https://www.cnnbrasil.com.br/business/bid-aponta-que-confianca-pode-ser-elemento-chave-para-o-desenvolvimento-socioeconomico/?amp&fbclid=IwAR01VGBC0E_56s3wAzAqMEFwSx2t9Py9oqhOeDY7ulq-aOHJDlS7m9ORgh0

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