Anúncio de Natal não é anúncio natalino

Anúncio do Natal não é anúncio natalino

Severino Vicente da Silva

 A jornada de dezembro é sempre uma oportunidade que se tem para que demonstre o esvaziamento das festas singulares do mês, que, para muitos é carregado de tristeza por que lhes falta alguma pessoa amiga na Ceia de Natal. Historiadores céticos, nos lembram que junto com o Papai Noel vem sempre acompanhado por um monstro, Krampus, encarregado de cuidar das crianças pouco educadas e não bondosas. Assim, é o medo, e não o desejo de fazer o bem ou ser bom, o profundo motor do natal, sendo o Papai Noel apenas o obnubilador, o que esconde o mal, a tristeza e o medo.

Sabemos que esse mito do Papai Noel não faz parte do Natal festa que é bem mais remota que a existência do São Nicolau, bispo cristão católico que tinha preocupação com as crianças. Quando Francisco de Assis fez o seu primeiro presépio, ele o fez para adultos, uma vez que, em seu tempo, esses conceitos de criança, de tempo infantil, não existiam. Criança eram os soldados de frente em uma batalha aqueles que seriam os primeiros a morrer no “campo de honra”, como descrevem aqueles que, à distância” decidem os que vão morrer. Infância é outro termo que não existia, como aplicamos hoje, à época de Francisco. Tais conceitos são próprios dos tempos modernos, quando as condições alimentares melhoraram e a morte visitava menos as famílias, permitindo a sobrevivência maior dos filhos. É a partir do século XIV, do Renascimento que as crianças e a infância começam a ser consideradas. Ainda na Primeira Revolução Industrial é grande o número de crianças postas a trabalhar mais que dez horas por dia, não lhe permitindo ter a infância, como a vemos nos dias de hoje. Aliás, nas periferias de nossas cidades, essa sociedade que está sempre em processo de atualização e a realizando de de maneira desastrada, ainda temos desastrada, ainda temos milhares de crianças sem infância. Em verdade infância quer dizer “sem fala, sem fonte”. Então, o bispo Nicolau estava muito preocupado com as crianças que estavam sendo carregadas por Krampus, que as levava para o trabalho nas minas de carvão, nas fábricas de tecido, etc. Melhor não, caro historiador progressista e cético, não destruir tão facilmente as ações do bispo da cidade turca de Mira.

O Papai Noel como o conhecemos em seu traje vermelho e branco, é resultado de um poema sobre a visita de São Nicolau e um cartum com a figura posto por um cartunista, em 1823. No final daquele século veio também a popularização da Árvore de Natal, uma tradição religiosa pré-cristã, que foi ressignificada pelo trabalho missionário de São Bonifácio, ainda no século VIII. Essas tradições, aceitas pelos cristãos – católicos, protestantes e ortodoxos, foram assimiladas à sociedade industrial de consumo.

O Lixão são lugares que recebem as sobras do consumo, lixo que vem das casas e dos restaurantes, como o de Pinheiros, no Maranhão. João Paulo Guimarães estava ali fotografando, que é o seu trabalho quando observou uma criança que, junto com sua mãe, buscava o que comer, estava retirando do lixo uma árvore de natal, feita de plástico, e dizer: vou levar para casa, porque eu nunca tive uma árvore de natal, ela está torcida, mas a gente conserta. A cena comoveu o profissional que passou a ajudar Gabriel, a criança que passou a ser um ser humano, mais que uma matéria para algum jornal. João Paulo foi tomado pelo espírito de São Nicolau em pleno espaço criado pela sociedade do desperdício, o que parece ser o saco de maldade Krampus, mas é o resultado de ações de adultos que confundem o bispo Nicolau com a figura gorda, de falso riso com as cores de refrigerante.

A árvore de natal, feita de plástico, encontrada por Gabriel trouxe, em seu riso, todas as tradições de fertilidade que marcam a permanente busca da humanidade que ainda não conseguiu vencer Krampus, esse ser egoísta que não gosta da felicidade do outro, mas que se alimenta da produção de miséria. Mas o sorriso que brotou dos lábios e do peito de Gabriel, parece realizar o sonho Francisco, na sua pretensão de mostrar aos adultos que Jesus foi uma criança, que as crianças devem ser cuidadas e não mortas, como denuncia o relato das ações de Herodes, o Grande, o Krampus daquele momento.

Crianças precisam de serem reconhecidos infância, não devem ser tratadas como força de trabalho, nem devem ser treinadas para serem consumistas. Não encantou Gabriel os plásticos que foram brinquedos dos ricos e da classe média que julga sê-lo, encantou o menino que ajudava sua mãe em busca de o que vender para comprar comida, foi a Árvore, o símbolo da vida; a árvore que lhe fez sorrir e que derreteu o coração de João Paulo Guimarães, que, parece estar vivendo e, como o riso de Gabriel, um Novo Tempo, o tempo do Natal.     

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