11 de setembro: os germes, as armas, as civilizações

11 de setembro, os germes, as armas, as civilizações.

Prof. Severino Vicente da Silva

No mesmo ano em que ocorreram as lembranças de duas décadas do atentado, bem sucedido, que derrubou os maiores edifícios de Nova York, também foi visto a derrota dos Estados Unidos da América do Norte ao admitir que fracassou na tentativa de impor o seu modo de viver a povos de outra tradição. A saída arrumada por um presidente republicano e posta em prática por presidente democrata, torna claro que o fracasso foi do Estado. O 11 de setembro de 2001 demonstrou que as agências de segurança não conseguiram perceber o que se preparava, dentro dos Estados Unidos, contra os Estados Unidos. Sabe-se, hoje, que o arquiteto e financiador das ações de setembro 2001, era amigo da família presidencial, que então passou a ser perseguido até à morte. No meio tempo começou uma guerra que demostrou pouca inteligência ao tornar todos os habitantes de diversos países inimigos, menos o país de origem do financiador do “projeto Torres Gêmeas”. Os sauditas pouco ou nada sofreram, diferente do que ocorreu com o Iraque, o Afeganistão e outros que estavam minando o campo das relações sauditas-estadunidenses.

Nesses vinte anos iniciais do século XXI, o confronto cultural fortaleceu os setores mais conservadores das nações, e em todas elas assistimos o retrocesso nas relações humanas, políticas, pessoais e religiosas.  A enorme quantidade de livros de autoajuda, a imensa quantidade de sábios a ensinar a melhor maneira de viver, são sinais explícitos dessa tendência, desse fracasso civilizacional que assistimos e, de alguma maneira, dele participamos. Quem leu os estudos de Jared Diamond Armas. Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas, compreenderá que pouco difere a ação do então presidente dos Estados Unidos da América daquilo que ocorreu entre os humanos nos primórdios de sua ação sobre o planeta e sobre os seus semelhantes, que também estavam se organizando para viver. O que os acontecimentos deste início de século e milênio nos dizem é que aprendemos a usar com mais habilidade os germes, aperfeiçoar os metais e a prática da guerra. A guerra realizada para impor uma maneira de compreender o mundo continua a ser o modo mais usual das ações dos grupos humanos organizados em clãs, tribos, nações ou estados; é usada para tornar claro ao grupo mais fraco, aquele que não conseguiu dominar os metais ou aperfeiçoar seus usos como instrumento de trabalho ou arma mortífera,  que só lhe resta duas alternativas: adesão ao novo modelo que lhe é apresentado ou resistir até a morte na defesa de si mesmo e, aos sobreviventes o tratamento de desconhecimento de sua humanidade, ficará na periferia, como lixo descartável.

A formação de sociedades mais complexas nas quais vivemos ou delas temos conhecimento, sempre produziu esses resíduos humanos indesejáveis que, vez por outra são mortos em ações mais ou menos aceitas pelos sócios, sempre prontos a justificar com suas religiões e/ou filosofias. Claro que se sofisticaram os meios e métodos de explicação para o não reconhecimento da humanidade desses sobreviventes. Daí os livros de autoajuda, as sociologias, as teologias, as constantes revisões históricas, as psicologias, etc.

Outro fator que se repõe neste início de século milênio, são os germes, esses companheiros de vida e morte, de difícil compreensão pois que estão fora dos nossos olhos, sabemos de sua existência, sentimos sua presença de maneira mais sensível quando adoecemos. Reclamamos explicações para as doenças, e sempre nos foram dadas pelas religiões: são mal olhados, são possessões demoníacas, são espíritos malignos, encostos, pragas, castigos divinos, e tudo mais que a imaginação e medo provocam. Desde final do século XV que a ciência racional, científica, vem buscando compreender a origem, função desses seres invisíveis com os quais convivemos e, em determinados momentos e circunstâncias levam à morte, quase sempre de modo individual, mas também pode vir de maneira coletiva, como estamos a experimentar mais uma vez, como forma endemia ou pandemia. E como o problema é coletivo, mas os livros de autoajuda são para indivíduos, cá estamos em uma enrascada à Simão Bacamarte.

Neste setembro assistimos mais um capítulo do atual Simão Bacamarte, gestor na Itaguaí atual, apoiado por assessores internacionais, que expôs a produção do medo ao máximo para impor seu modo de viver, ameaçando, com invisíveis bacamartes e fuzis, colocar a todos na famosa Casa Verde, agora acrescida de amarelo.

E em meio a tudo isso, há um debate sobre a Grande Imprensa que faz “narrativas”, como se, em algum tempo a imprensa foi efetivamente “portadora da verdade”. A sequência de manchetes na imprensa francesa entre a fuga de Napoleão e sua chegada a Paris nos dá uma pista para pensar sobre a ruindade da imprensa atual, e a relação entre a imprensa e o poder.

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