Escolhas históricas

Escolhas históricas.

Severino Vicente da Silva[1]

Pois que veio e se foi, este agosto de chuva, ventos e acontecimentos comuns e incomuns. Em muitas escolas continuam festejando o Mês de Folclore, essa palavra inglesa, inventada no século XIX para negar que aos pobres da Inglaterra e aos povos não europeus fosse concedida a permissiva ideia de que eles teriam cultura. Na época, alemães e franceses debatiam se eles eram detentores de cultura ou civilização, debate bem apresentado por Norbert Elias enquanto desvelava o processo pelo qual a Europa inventou a sua civilização, até início do século XX. Enquanto isso, aqui no Brasil, a Secretaria de Cultura, subordinada ao Ministério do Turismo, juntamente como Ministério da Fazenda, colocava à venda o edifício Gustavo Capanema que foi a primeira sede do Ministério da Cultura, pois que ele perdeu a sua utilidade (Estadão, 19/8/21). Na véspera deste Mês do ‘Folclore’ (G1 SP 30/7/21), assistimos imagens de um incêndio que fez desaparecer grande parte da memória, da produção do cinema brasileiro. No mesmo passo, soubemos que o Diretor da Fundação Palmares está propenso a retirar os símbolos da tradição africana do logotipo da Fundação (Poder 360, 24/08/21). Agosto é mês que corre muito vento, nem sempre esses ventos são do Saci Pererê, que são ventos de brincadeira. Mas a cultura neste país continua sendo folclore, coisa para turista ver. Talvez seja por isso que o atual governante do Brasil tenha colocado a cultura como parte do turismo. Mas é um desastre após o outro e, neste diapasão logo mais não teremos, da cultura que criamos ao longo de quatro século, “nada além de uma linda ilusão”, como dito em famoso fox, composto por Custódio Mesquita e Mario Lago, em 1938.

Entretanto, em grupos menores, esses que poderiam ser chamados por minorias abraamicas, se usássemos a sugestão de dom Hélder para indicar os que não desistem de seus ideais, pudemos assistir e, também participar, de debates sobre os acontecimentos históricos de 1821, aqui em Pernambuco, envolvendo pessoas de Goiana, Nazaré da Mata, Paudalho, Olinda, Recife. À época ocorria no Império Português a Revolução do Porto que determinava a formação de Juntas Governativas, sugerindo grandes mudanças políticas. Pensava-se superar a autocracia monárquica por uma monarquia constitucional. As diversas províncias deveriam criar Juntas Governativas e aderir ao processo constitucional em andamento. Então, o General Luiz do Rego, português que governava Pernambuco desde a derrota da República de 1917, não se dispôs a acatar as determinações provenientes do Porto, e pretendia continuar com o seu mando autoritário, a Câmara de Goiana, após longo debate, estabeleceu uma Junta Governativa e exigiu a renúncia do algoz dos pernambucanos. A insistência em manter seu arbítrio pessoal, o fez enviar soldados para deter as tropas que foram criadas a partir dos acontecimentos de Goiana, mas os soldados pernambucanos que estavam sob comando de portugueses aderiram ao movimento que se dirigia ao Recife. Cercando o Recife, estabelecendo quartel general próximo ao rio Beberibe, no mês de outubro, a Junta de Goiana forçou a queda da autoridade do Império Português em Pernambuco. Formou-se, provisoriamente, um governo independente do Reino Unido Brasil/Portugal. Mais tarde, na Catedral de Olinda ocorreu a votação para o primeiro governo independente no Brasil, tendo sido escolhido para chefiá-lo o comerciante e combatente de 1817, Gervásio Pires Ferreira.

Em 29 de agosto de 2021, o Instituto Histórico Geográfico de Goiana celebrou a data da independência “sem Ipiranga, sem independência vassala”, no dizer do historiador Josemir Camilo.

Celebramos a vitória dessa primeira independência, nos institutos históricos de Olinda e Goiana e em outros institutos, embora haja celebrações maiores por sua derrota, em decorrência do grito tardo e do agrado de Dom João, o rei do Brasil e de Portugal. E fazemos essas celebrações para que se saiba desses fatos passados há dois séculos, e o fazemos em um momento crucial da nação brasileira que se forjou em torno do Sete de Setembro, quando um outro militar de parca compreensão do momento histórico, voltado para si mesmo, apoiado por alguns, deseja perpetrar um golpe contra as instituições brasileiras, conclamando seus seguidores para, no dia sete de setembro, demonstrar seu poder. Em verdade demonstra que, como Luiz do Rego truncou as orientações da Assembleia Constituinte do Porto, atualmente, o militar reformado para não ser expulso do exército, vive a fazer esdrúxulas leituras da Constituição brasileira a seu interesse. Celebramos as vitórias de 29 de setembro e 10 de outubro de 1821, derrotadas na continuidade do sete de setembro de 1822, na confiança de que não retornaremos a situação de subalternidade que os atuais gerentes do país nos querem levar.


[1] PhD em História pela Universidade Federal de Pernambuco, Sócio do Instituto Histórico de Olinda, Sócio Correspondente do Instituto Histórico Geográfico de Goiana, Membro da Comissão de História da Igreja da América Latina.

Foi escrito para outro meio que não o blog

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