Semana da Pátria e a história de um povo

Semana da Pátria e a história do povo

Severino Vicente da Silva

Então começou setembro e, com ele, a Semana da Pátria, como aprendi desde os primeiros anos de minha vida escolar. Também um pouco em casa, embora não tenha sido no ambiente familiar meu primeiro conhecimento dos eventos que culminaram com a proclamação de um jovem príncipe, às margens de um riacho conhecido como Ipiranga. Creio que o mesmo aconteceu com a maioria dos jovens de minha idade, nascidos no interior do Brasil.

Essa história de pátria brasileira, de heróis brasileiros, só se sabia através das cédulas que traziam imagens de Pedro Álvares Cabral, Barão do Rio Branco, Duque de Caxias, Deodoro da Fonseca, Princesa Isabel, Pedro I, Pedro II. Meus país cresceram no final da República Velha, foram jovens ao longo da Ditadura do Estado Novo. Eu, nascido no período da dita redemocratização, como meus irmãos já íamos para a escola onde aprendemos que vivíamos no Brasil. Meus avós e meus país nasceram e cresceram nas terras de alguém. Do Brasil sabiam por terem pago um imposto no cartório ao registrar um pedaço de terra, resultado da guarda de dinheiro ganho no transporte de algodão, e também por terem casado “casado no civil”, pagando ao Estado por este serviço, também pago quando registraram seus filhos. Mas foi na capital que foram se tornando íntimos do Estado. E pagavam impostos sem saber que o pagavam. Ainda pagaram escolas primária e secundária para seus filhos, pois não havia escola pública para atender os mais pobres. Não era fácil conseguir uma matrícula em “escola do governo”, como se diz na época. Mas todos pagavam impostos, e muitos sonegavam, como hoje. Foi para diminuir a sonegação dos comerciantes que o Secretário da Fazenda no governo de Cid Sampaio, Miguel Arraes, criou o programa Bônus BS.  

Só nos anos setenta é que se soube que havia o tal de Leão do Imposto de Renda. É, foi pelos impostos que o Estado brasileiro se aproximou do seu povo. Além da polícia, sempre temida pelos mais pobres, pois que estava a serviço dos poderosos. A proteção prometida era sempre relativa. A relatividade das relações sociais sempre foi do conhecimento dos pobres, ainda que não soubessem nada do pensamento de Einstein.

Mas, voltando ao tema, a Semana da Pátria era o momento em que o Estado mostrava a sua força nos desfiles militares. O Sete de Setembro foi sempre um momento de exposição do poder da força do Estado, com suas fanfarras, seus passos de sincronizados, uma “amostração” para o povo que, como disse Aristides Lobo, “assistiu bestificado a proclamação da República”. Mas os desfiles das Forças Armadas foi um caminho escolhido pelo ditador Vargas para encontrar-se com o povo, criar uma ideia de nação; era um esforço para definir o Brasil que, sem modificar as marcas do império do latifúndio escravocrata, viesse a sentir-se diferente. Um esforço que foi continuado após o fim formal da ditadura e pela nova ditadura instaurada em 1964. Aos poucos foram sendo integrados outros aspectos da sociedade, especialmente após a guerra findada em 1945. Criaram-se os Jogos estudantis e até mesmo a abertura de espaços para estudantes pouco antes do desfile dos militares, no Sete de Setembro, passaram a ocorrer. A percepção de que tais desfiles de armas não representava o povo, fez surgir em 1994, o Grito dos Excluídos.

Neste ano de 2021 algo interessante está ocorrendo: nem mesmo o exército está muito interessado em desfilar no Sete de Setembro, pois teme que seja definitivamente confundido com uma demonstração de um grupo que pretende golpear o Estado que eles construíram 103 anos de influência, direta ou indireta, na formação da ideia de uma nação. Assim, mesmo sabendo que nem sempre o Estado Brasileiro, que o Exército brasileiro esteve intimamente ligado aos interesses do povo construtor do Brasil por seu trabalho sem reconhecimento, vamos celebrar o Sete de Setembro no  sentido de completa-lo, incluindo a celebração do 5 de outubro de 1821, a primeira independência do Brasil, nas margens do rio Beberibe.

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