Dia da Mulher, dia da humanidade

E chegamos na segunda semana de março, o segundo março deste século tomado pela doença que, em nosso país está associada a uma praga que  que foi escolhida, acolhida, por um povo dominado pelo medo, pela incapacidade de pensar, de avaliar as informações que lhe chegaram no momento da escolha. Essas habilidades, como ensina Perenaud (deve ter lido Paulo Freire) não são genéticas, são culturais, ou seja, são ensinadas e aprendidas. Mas, desde alguns séculos, sabe-se que é necessário haver escolas, tal a quantidade de saberes acumulados e renovados. Mas essas ideias não passaram pela imaginação dos senhores de escravos, nem pela cabeças de poucos descendentes de escravos que chegaram ao poder. Além do que, os emissários fizeram questão de complicar o processo de transmissão das mensagens. É que cada emissor entendia-se como a própria mensagem, seja aquele obscuro pouco conhecido, mas conhecido, seja o outro que era astro brilhante, capaz de iluminar e dar luz a e em qualquer poste. Os emissores e emissários apenas testaram o poder do medo, elemento precioso para a manutenção de qualquer sistema de dominação. Mas os elementos racionais estiveram ausentes porque nos anos, nas décadas e séculos anteriores a opção dos que empalmaram o poder, foi sempre pela manutenção da ignorância. E a ignorância fez a escolha entre o medo e o medo. O medo do “comunismo” e o medo do torturador. Venceu o medo do comunismo que vendeu o petismo como tal, e, como o anticomunismo foi cultivado de muitas maneiras nos últimos cem anos, eis que a praga aumenta a doença Covid. Agora é cuidar para não ficar doente e, simultaneamente fazer a crítica permanente da praga, ou das pragas.

Neste dia, como nos demais, podemos refletir sobre a situação de parte da humanidade, essa parte feminina que tem suportado tantas dores na construção das sociedades. Em todas as sociedades humanas, as mulheres pagam um preço que não deveriam pagar, e é um preço bem mais alto do que pagam os homens pobres nesta sociedade patriarcal e plutocrata. O machismo muito se alimenta da produção de bens e, principalmente da acumulação dos mesmos. E, embora pouco realçado, as mulheres, ao longo do tempo e em todas as sociedades são formidáveis produtoras de bens materiais que lhe são negados e, quando se lhes permitem o acesso, o fazem chantageando, exigindo concessões infinitas. E isso ocorre em todas as classes sociais de todas as sociedades, em todas as instituições, as seculares e as religiosas.

Há sempre que se estar atento aos seus cansaços, às suas irritações momentâneas, aos seus choros silenciosos, aos medos estampados em seus rostos quando vão ao trabalho, sempre temerosa de encontrar algum macho sem expectativas em sua vida e, derrame a maldade que carrega. E sabemos como ela tem carregado tudo isso e, nem por isso seu riso deixa de afagar suas crias, seus amores.

As mulheres estão perdendo o medo e pondo medo naqueles que as exploram, como exploram todos os que eles submetem aos seus caprichos, coisificando todas as relações humanas. Um dia superaremos todos os medos, embora saibamos o quão é difícil, para homens e mulheres o caminho da liberdade, da vitória sobre o medo.

Um dos momentos mais interessantes na minha leitura bíblica é a conversa entre Maria e seu Filho Jesus na festa de casamento no povoado de Caná da Galileia. Maria apresenta um problema enfrentado pela família em festa e Jesus lhe diz: mulher, que temos tu e eu com isso?  Maria olha para ele, dirige-se aos que servem e diz: façam o que ele lhes disser. Maria sai, Jesus indica o que fazer e manda servir a bebida. Só pessoas livres do medo podem realizar uma cena como essa descrita pelo evangelista; só pessoas conscientes de suas personalidades são capazes de agir para além de suas vaidades pessoais pois entendem que a maior alegria e a maior felicidade é construir o mundo bom. É esse diálogo que deve existir, essa possiblidade de entender o outro além das palavras, pois o amor não se encontra nas palavras, mas nas ações que as palavras descrevem.

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