Nóis sofre mas nós Goza?

Estamos vivendo um ano muito atípico, com essa “gripezinha” que já matou mais de duzentas mil pessoas, só no país cujo presidente parece sentir-se bem com tantas mortes. Quando ainda não havia sido escolhido para ser carrasco das instituições e do povo brasileiro, o capitão da reserva lamentava que tenham sido mortos tão poucos brasileiros pela ação do exército. Agora ele para estar muito excitado com as mortes que tem provocado pelo seu modo de governar.

Para cuidar do meio ambiente do Brasil, colocou no ministério uma pessoa acusada de crime ambiental; para comandar a Fundação Palmares, que cuida do patrimônio e da herança culturais africanos que vieram como escravos para o Brasil, ele pôs um intelectual negro que nega tais tradições; para cuidar dos assuntos da família e dos gêneros colocou como ministra uma pastora evangélica que vê pecado em qualquer manifestação que ela cria ser contra a Bíblia; no ministério da Ciência e Tecnologia, colocou um astronauta que ainda não sabe como foi ao espaço e silencia quando o presidente levanta sua voz contra a ciência; o ministério das Relações Exteriores, foi entregue a um diplomata que faz questão de colocar o Brasil fora das relações com os Estados Livres e adeptos do pensamento científico; finalmente colocou no Ministério da Saúde, um general obeso, obediente, incapaz de pensar e, dizem ser especialista em logística. Pois bem, este general, que não sabia o que é o SUS, Sistema Único de Saúde, o está destruindo, como já desmobilizou o sistema de vacinação que o SUS mantinha e era considerado, mundialmente, como dos melhores. O general da logística deixou faltar oxigênio para os pacientes, não conseguiu elaborar um plano de vacinação, não comprou as vacinas necessárias para a população. Isso nos faz temer pelo futuro, pois se está a perder o presente, a alegria de viver. O medo da morte está nos rostos dos brasileiros e nos risos dos seus dirigentes: os primeiros apavorados, os segundos, parecem extasiados. 

Nas perdas que sofremos nos últimos anos, o mundo tem sentido a perda do Carnaval, uma festa universal que assumiu, desde o início do século XX, ser a principal festa do Brasil. Mas são muitos os carnavais e de diferentes formatos embora seja mais vibrante no Rio de Janeiro, com um modelo de espetáculo, algo para ser visto e aclamado. O carnaval para os outros verem não é o único que existe naquele pedaço do Brasil. São Paulo gostou muito do estilo carioca e montou, com sucesso, as arquibancadas e a passarela. Outro carnaval é o da Bahia, que teve a ousadia de modificar a forma de tocar o frevo e seguir os trios, sem passarelas, mas com cordões protetores, excluindo no carnaval quem já é excluído o tempo todo. Mas aos poucos as cordas cedem espaço, o povo fica cada dia mais próximo do carro que leva o Trio que virou banda, e os cantores/animadores, cada vez mais altos. Pernambuco tem Maracatus de nações africanas e Maracatus de Caboclos de Lança larga para lembrar que a terra tinha dono antes dos entrudos; tem Tribos de Índios e Caboclinhos de passos rápidos que correm atrás das notas dos pífanos, e isso sem contar com as La ursa, os Ursos, e tantas troças. Recentemente, talvez por medo de perder espaços nas televisões, criaram um clube de máscaras e fantasias que saía na madrugada do sábado, mas com os recursos conseguidos, veio a tomar conta de todo o sábado, fechando o Recife para si mesmo e, acabando com o carnaval de rua no Recife na região Metropolitana; tomou para si a cidade que passou a ter um carnaval espetáculo, parecido com o Rio de Janeiro, e com os quase trios soteropolitanos. Mas, para gaudio dos orgulhosos pernambucanos, passou a ostentar título dado pelos ingleses. Aí o povo foi para Olinda, e os bairros de São José e Boa Vista perderam seu carnaval. Coisas da dinâmica da vida.

Este ano, os pernambucanos esperaram o ano inteiro, mas não se meteram na brincadeira, e a Quarta Feira ingrata ocorreu uma semana mais cedo. Publiquei na Revista do Instituto Histórico de Olinda que Recife e Olinda, desde os anos sessenta estendem o carnaval de forma que os ensaios e acertos de marcha têm início em setembro, mas este ano ficaram sem carnaval pois, dançar com a Covid 19, pode ser um convite para o fim do carnaval individual.

Não parece ser fácil viver sem o carnaval, um ritual de passagem, o verdadeiro réveillon brasileiro, pois aqui, “tudo começa depois do carnaval”, tudo que vem antes é ensaio e acerto de marcha. O ritual dá um sentido à vida, ao cotidiano, depois de tentar suprimi-lo. Sem carnaval, como será a quaresma, especialmente para os não crentes, os não religiosos? Ter-se-á que fazer uma nova explicação para as cinzas nos rostos, sem o carnaval? A não existência do carnaval está impedindo que o catador de latas de cervejas oportunize (assim se diz hoje) ao jovem endinheirado a alegria de ajuda-lo na tarefa de alimentar sua família? E o que dizer dos carregadores de gelo, os apertadores de parafusos dos palcos? A não existência do carnaval põe em risco muitas existências, mas a sua realização, neste ano, também põe em risco as existências de muitos. Assim, teremos um carnaval virtual, visto pelas telas. Os computadores serão as avenidas para os mais carnavalescos. Entretanto, os Tambores de Olinda não chegaram ao Pátio do Rosário para silenciar. Como será o silêncio do Pátio do Terço? Talvez volte a ser o silêncio do tempo mais antigo de Badia e suas companheiras da irmandade de São Cristóvão. Escuto que o homem da Meia Noite fará uma ‘live’, julgando manter a tradição, mas não poderá entregar a chave ao Cariri no Largo de Guadalupe. E o Galo, cantará na madrugada, no coreto que já foi do Leão Coroado?

A Sete de Setembro ficará silenciosa neste sábado sem o brilho azulado de Tarcísio Pereira que, não aguentou mais sofrer e foi para o gozo eterno. Não é, o 7, a perfeição, a soma da Trindade com os pontos cardeais? A barba azulada de Tarcísio ficará bem, ao lado do azul do manto de Nossa Senhora. É capaz de se confundir. De lá ele verá o Bloco subir Misericórdia ao som do frevo, e perguntará se o carregador do estandarte é São João do carneirinho. Com certeza também sorrirá ao ver o desaparecimento das barracas da Praça do Carmo e ouvirá algum Querubim dizer: Eu acho é pouco, pois inventaram tantos partidos que o terreiro da Carminha ficou pequeno.

Escrevo essas bobagens porque estou ouvindo, no fundo das minhas lembranças a orquestra nos guiando para a atravessar a ponte da Duarte Coelho e frevar no Pátio de São Pedro antes que o galináceo tmasse o Recife para si. Este ano, Nóis sofre mas nós Goza? Esta é a pergunta que nós põe o último baluarte do carnaval da Boa Vista.

Daqui eu fico pensando: sempre que começam a organizar o que o povo já organizara o povo desaparece, só ficam os catadores de latas.  

Artigo sobre Carnaval que ultrapassa 30 dias, veja o link abaixo 

https://www.academia.edu/44006285/UM_CARNAVAL_QUE_ULTRAPASSA_30_DIAS

http://www.biuvicente.com/blog/

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