O País da Coconha

Quinze dias se passaram desde que o ano de 2021 teve início. Quando ocorreu o mágico momento em o ponteiro que marca os segundos, eram muitos os pensamentos positivos e as preces que pediam, aos muitos deuses e deusas, um ano melhor do que aquele que estava finando. 2020, ao finar-se deixava uma marca triste no número de finados, de pessoas que deixaram de ser, que passaram a ser lembranças, para os que lhes conheciam e, com eles, dividiram parte de seu tempo e, é quase certo, sonharam alguns sonhos, tendo alguns deles sido materializados. Mas, os mais otimistas entendiam que haveria muitas repetições das dores que a peste traz.

As alegrias, sabemos, são pequenas flores que aparecem nos jardins, em uma brava luta contra o que se convencionou chamar de erva daninha. Elas são sempre em número maior que as flores de nosso agrado. Aliás as flores que nos alegram quando olhamos nos  jardins, só o fazem porque nos dedicamos a elas. Muita gente é feliz sem saber, ou pensar, que o que lhes traz felicidade é resultado de seus esforços. Também os sofrimentos. Fala-se que o Conselheiro Acácio costumava dizer que “as consequência chegam depois”. Assim sendo, as dores de 2020 e dos anos que seguiremos, são resultantes da ação de cuidarmos das flores ou deixarmos crescer as ervas daninhas. O que dói é admitir que se existem esses sofrimentos, esses acontecimentos indesejáveis que nos molestam hoje, eles foram cultivados, foram desejados, de alguma forma, nos anos anteriores.

O ‘País da Coconha’ quem não o deseja? Os brasileiros, talvez mais que qualquer outro povo o deseja, até mesmo mais do que aqueles que o inventaram, o imaginaram. Pintores europeus mostraram esses sonhos, os representaram com lavradores deitados na relva, e em êxtase viam as galinhas já greladas vindo na direção de sua boca para satisfazer seu apetite. Os lavradores sonhavam isso, pois viam isso ser vivido pela nobreza que, não trabalhando na terra, recebiam os alimentos em suas mesas tendo, no máximo, de fazer o esforço de leva-los à boca para o supremo trabalho de mover as mandíbulas e, com a língua, empurrar o alimento para o estômago.

O que parece é que os vieram da Europa para formar o Brasil trouxeram em sua mente o País da Cocanha e uma certa Visão do Paraíso, julgaram ter encontrado o lugar da benção inicial, e pensaram e agiram como se na Cocanha tivessem chegado. Não, eles não eram nobres, os que vieram para o Brasil, era gente que se enobreceu na guerra de conquista do litoral africano e em algumas regiões da Ásia, então criaram para si o que julgavam ser o mito. Para tal passaram a explorar, sistematicamente, os habitantes da terra e, mandaram buscar, no outro lado do Atlântico, gente para substituir os nativos. Começara o processo de substituição de tecnologia para a produção e, desde então, isso é pago com o preço do atraso. Daí, quando não mais puderam ficar com Portugal lhes tomando parte do que lhes cabia, promoveram a ‘separação’ e desde então não se envergonham de dizer que estão “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”.

Com mesma tranquilidade de sempre, seus descendentes continuam fazendo pouco caso das mortes dos que produzem a riqueza para que eles se empanturrem de comida e bebida. Daí o descaso com que tratam a pandemia Covid 19, colocando a economia acima da vida dos trabalhadores. Se fizeram isso com os nativos escravizados, com africanos escravizados, continuaram a fazer com os moradores arrendatários, e o fazem atualmente com os motoristas e cobradores de ônibus, com os frentistas, com os empregados e empregadas domésticas, com os entregadores de comida pronta, com os comerciários. Animados pelos novos godos, os comerciantes e industriais exigiram, continuam exigindo, que as atividades econômicas não parem, para que seus lucros não cessem. Talvez até estejam fazendo cálculos para saber qual o ganho da Previdência Social com a morte dos mais velhos. Só eles podem envelhecer, ainda que vilmente.

Mas estamos no final da primeira quinzena do mês de janeiro, o mês daquela deusa que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, que só percebemos quando presente. Enquanto ele não existe é apenas desejo.

Os habitantes de Coconha não formam uma nação, pois uma nação é formada por pessoas que se juntam para realizar o sonho comum e o fazem solidariamente, mesmo quando  não em igualdade total. Uma sociedade na qual apenas uma parte tem acesso aos bens criados por todos, uma sociedade que se comporta como Siris na Lata, uma sociedade que não admite o mínimo de solidariedade e reconhecimento do outro, jamais será uma nação: será sempre um grupo de exploradores que cultiva o egoísmo, que aceita negar a dor do outro. Coconha é uma sociedade de necrófilos, de genocidas. O Paraíso, mesmo para os exploradores é um inferno, como disse um cronista dos tempos em que Portugal explorava essa região do globo: o Brasil é o paraíso dos mulatos, o purgatório dos brancos e o inferno dos negros. Por isso temos Manaus. Vocês sabem, Manaus era uma nação indígena suprimida pelos sonhadores de Coconha.

Continuamos assim, neste início do século XXI. Vemos que os que estão no poder de Coconha carregam inveja dos mulatos; continuam a tornar um inferno a vida dos negros, mas jamais sentem-se no paraíso, que continua sendo uma Visão, como dizia aquele historiador respeitável. Mas é um paraíso que jamais será alcançado pois eles tudo farão para tornar a vida de todos um inferno, criando dificuldades as mais diversas, inclusive para o acesso à vacina. Mas isso não os fará felizes, seu líder continua desejando uma praia. Em outros países que também vivem da exploração de seus compatriotas, mas que se esforçam para ser uma nação, os líderes cuidam para que o seu cotidiano sofrido não seja definido como inferno. É que eles não sonham com Coconha.

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