O 20 de novembro que sonho

Semana da Consciência Negra, período do ano no qual se deve pensar um pouco mais no quanto somos negros, no Brasil. Claro que os que perambulam pelos Centros de Compra (diz-se Shoping Center)  em busca de liquidação (agora se diz Black Friday – uma sexta-feira negra), só rapidamente percebe gente de cor nos corredores. Historicamente fomos nos formando assim: vendo o mundo de pessoas brancas com alguns manchas negras e pardas perambulando com seus uniformes que os diferenciam dos não uniformizadas e entre si, de acordo com sua ocupação, sua tarefa, naquele lugar. Os uniformes são visíveis e passam com desenvoltura silenciosa e prestativa. Vez por outra aparece alguém de cor não branca sem uniforme e, dependendo do humor de quem o ver, pode ser parado para um pequeno inquérito que desvende sua presença. Caso seja jovem  e desacompanhado, problemas podem vir à tona, sim, os problemas criados pela nossa formação, como povo e como pessoa. Esta é uma semana para refletir um pouco nesse descompasso.

Meu filho mais jovem, oito anos, veio perguntar-me: Biu, é verdade que maltratavam muito os negros no Brasil? Disse que sim, que os maltratavam bem mais do que hoje; que seu trisavô havia sido escravo, escravizado, pois deve ter nascido alguns anos antes da Lei do Ventre Livre (1871), bem como seu tetravô, que possivelmente nasceu após a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que proibia o comércio internacional de escravos. Esses dois antepassados sofreram bem mais que o seu bisavô (José), pois este já nasceu livre, nos primeiros anos da República.

Meu filho vez por outra pergunta, porque alguns de seus irmãos e tios têm a pele mais branca que a dele, a do seu irmão e a minha. São esses segredos da genética que expõem a intensa troca de informações realizadas pelas gerações anteriores e nos fazem um país multicolorido e, também multicultural. Essa troca genética ocorreu mais, e é mais notada, nas regiões de Pindorama que foram ocupadas primeiro pelos europeus, especialmente o português. Afirmar que houve essa troca genética para a criação do brasileiro, não significa dizer que ela foi realizada de maneira consensual, pois o intercâmbio genético tem, como principal fator o homem branco, não a mulher branca, que era em pequena quantidade nos anos iniciais da colonização portuguesa. Somente nos século XIX, com a chegada de uma grande quantidade de emigrantes vindos da Itália, Alemanha, Suíça, Polônia e outros países, que aqui chegaram com suas mulheres e filhos é que ocorreu um aumento substancial das pessoas de pele branca. E eles ficaram isolados em suas colônias, reproduzindo a mesma sociedade vivida na Europa. Foi pequena e pobre a troca genética e cultural. Eram poucos os negros entre eles, e quase sempre em condição de escravidão. O Brasil mestiço, mulato, é encontrado no Recife, em Salvador, São Luiz, e outras cidades do Nordeste, também no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas sempre em condições periféricas.

A mestiçagem biológica não significou uma adesão à cultura dos índios e dos africanos que foram trazidos para o trabalho escravo. Sempre houve um muro sociocultural que nos separa de alguns ancestrais, os ancestrais dos primeiros habitantes e os ancestrais dos africanos. Durante anos, em nossas escolas, os padres católicos, os pastores protestantes, os legisladores, não cuidaram de nossas ancestralidades, cuidaram de nos mostrar apenas aquela que veio da Europa. Embora sempre houvesse havido pessoas que chamaram atenção à presença e contribuição de índios e negros na nossa formação, é apenas na segunda metade do século que este movimento é fortalecido socialmente. A quebra das cancelas culturais garantidas pelo isolamento geográfico das populações, desanuviaram muitas mentes e corações. As migrações internas, os boias-frias, esses trabalhadores transportados em caminhões para atender os interesses de fazendeiros, foram dando nova visibilidade aos brasileiros mais coloridos, morenos, pardos, cafuzos, negros. Seus costumes, suas tradições passaram a ser estudadas a partir e para eles mesmo, e foi sendo assumida a ideia de que o Brasil tem muitas culturas e muitas tradições que foram submersas pelo projeto de fazer o Brasil, país de uma só cultura e, apesar do que sempre disseram os olhos, tentaram fazer-nos o país de um cor única.

A movimentação geográfica foi acompanhada de movimentos culturais e, os grupos foram surgindo no processo de descolonização interna, ao mesmo tempo que estava sendo realizada da Descolonização da Ásia e da África.

Com processo de Descolonização em andamento tivemos, como consequência, a exposição dos conflitos “invisíveis”, dos choques que existiam mas não eram comentados, apurados. Famoso foi o caso de uma senhora de fina estampa que colocou em colégio para a alta burguesia fluminese, o filho de sua empregada, logo expulso, por ser negro. Uma situação que gerou o primeiro caso de racismo julgado no Brasil, em 1955. Os donos do colégio foram presos, segundo a Lei Afonso Arinos, criada anos antes, que definia o racismo como crime.

O caminho das artes foi uma das rotas seguida para a apresentação das cores e sofrimentos sociais dos coloridos brasileiros. A música, o cinema, o teatro, a poesia, a dança, entre outros, foram espaços sócio-culturiais galgados pelos negros e mestiços brasileiros. Os esportes foram desde o mais antigo passado, uma atividade das elites, mas é o futebol, esporte que foi tomado pelos operários, tornou-se o espaço onde mais brilharam os negros, em uma época de terrenos baldios, próprios para o divertimento dos pobres que aprimoravam o modo de jogar e, em 1958, a seleção de negros, mestiços e brancos derrotou o modo europeu de jogar. São tantos os negros que tornaram o Brasil visível, para si e para o exterior.

E, então, vieram os tempos das conquistas educacionais, a ocupação dos bancos escolares, uma vez que os novos tempos forçaram os donos do poder a colocar escolas na favelas e periferias que o progresso e o enriquecimento de alguns. Sim, no início do século XX tivemos um presidente negro, mas o poder não está na presidência, está no Parlamento; este é um espaço que deve ser conquistado pelos brasileiros de todas as cores. Temos alguns deputados e vereadores negros, mas alguns deles ainda pensam como se o país fosse de apenas uma tradição, aquela que foi apontada pelos primeiros criadores da história do Brasil, uma história da tradição branca, como a proclamada por um cidadão “preto de alma branca” que foi posto na presidência da Fundação Palmares.

Quando olho para meus filhos e netos coloridos, meus sobrinhos brancos mestiços, penso que não desejo um Brasil Preto no Branco, nem Branco no Preto; tampouco desejo um Brasil bicolor, pois isso é falso, é um “brasil/colônia”. Desejo um Brasil ecumênico nas suas cores, nos seus ritmos, nas suas danças, nos seus sotaques, nos seus deuses. Desejo um Brasil conciliado com suas tradições, com a consciência de que é negro, que é branco, que é índio e que é muito mais e maior do que esse triângulo básico indica. E para isso é necessário, mais que lembrar o passado de sofrimento, afirmar que neste passado sofrido, os nossos ancestrais negros foram criadores de uma nação que ainda não tem consciência de sua beleza.  

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