Todos Irmãos: esperança, cansaço e renovação

Viver em paz é diferente de não fazer nada. Há quem diga que se deve treinar para viver o nada, perceber tudo sem envolver-se no que é visto e experimentado. Experimentar o nada. Eis algo difícil nos dias que vivo, desde o amanhecer até o momento que o cérebro não me permite observar. O cérebro observa-me, o tempo passa e ele, observando-me, refazendo as experiências enquanto durmo. No sono vêm as imagens descritas por Loyola Brandão em Não verás país. Não vejo mais o país. Vejo a impossibilidade de um país sendo criada, não na ficção que Loyola previu três décadas atrás. Não Verás País algum. Vivo a perda do país que imaginava estar criando com os meus contemporâneos, e temo entender que não verei o país que imaginava com alguns de meus contemporâneos.

Em momento tão perdido, que parece ser de descanso, para não perder a sensibilidade vem uma carta do Vaticano, assinada por Francisco a nos dizer que somos Todos irmãos. É sempre escandalosa essa afirmação de sermos todos irmãos. Nem todos percebem que mudanças essas três palavras carregam. Quase ninguém deseja que sejamos todos irmãos. Até mesmo alguns familiares.  Ser irmão no abstrato é aceitável, e a leitura do que o papa escreveu é animadora para muitos, até para os que não leram e, creio, não lerão, essa bela correspondência que foi endereçada aos cristãos, aos que carregam alguma fé e, mesmo aos que vivem sem carregar qualquer fé. Mas é aceitável essa ideia de quem somos todos irmãos.

Não há novidade neste discurso que, mutatis mutantis,  é dito em quase todos os púlpitos erguidos em cada esquina do mundo, dentro ou fora das igrejas e dos parlamentos. Somos todos irmãos, dirão os políticos, os pastores, os padres, os chefes e as chefes (será chefa?) de família, os líderes estudantis, os candidatos a vereadores e prefeitos ao lerem ou ouvirem essas palavras do papa.

Uma semana depois, quando se tornou público um documentário no qual o papa Francisco diz que se deve admitir a união civil de casais do mesmo sexo, logo já se percebeu que nem todos somos irmãos; que se corre o risco de um cisma no mundo católico, pois se diz que o papa é um herege, que o Espírito Santo enganou-se e a Igreja está sendo dirigida por um seguidor do demônio. E alguns cristãos, católicos ou não católicos, passam a agredir os católicos, querendo saber se vão seguir o papa e outras coisas semelhantes.

A ficção de Inácio Loyola Brandão usa um verso de outro poeta, Olavo Bilac. Criança, não verás país algum como esse. Referia-se, o poeta do civismo, ao Brasil que, no início do século XX, incitava as gerações jovens a amar com orgulho o país em que nascera. O país mudava de regime sem conversar com os que formavam a nação, mas os que dirigiam a mudança desejavam po amor de quem amava a monarquia e o amor dos que não a conheceram. O poeta estava otimista quanto ao futuro.  

A passagem do século XIX para o XX era de otimismo para os bem nascidos e, até para os que nasceram sem berço, pois a República parecia criar condições para todos; mas esse “todo” não envolvia a todos, perceberam, bem mais tarde, os mal nascidos e os bem nascidos. Estes, os que se apossaram das terras do país, continuaram a insuflar os que jamais teriam acesso à terra, a cultivarem o amor à nação. Queriam o amor mas não dariam a terra.

Ao longo do século, os que formavam a nação, mas não tinham terra, foram compreendendo que jamais veriam “país como esse”; o preço das passagens aéreas não permitiam ir conhecer outras terras. Era uma promessa que os bem nascidos faziam questão de cumprir: não permitir que outros países fossem conhecidos pelos que não possuíam terras. Não poderiam fazer comparação, poderiam amar o que viam ou o que se permitia que fosse visto.

Outubro está ao término, mas não as bobagens que fizeram enquanto ele dura. Outubro é um mês duro, de muitos dias. Nele, como em todos os meses nasceram muitas pessoas, algumas no início do mês, outras quase em seu término. No início do mês, dois aniversários, o de Francisco de Assis, no dia quatro, sempre me lembra um amigo que nem sei se ainda lembra de mim. Não importa sua lembrança, importa que eu não o esqueço. Todos os anos lhe envio festas no dia 4.  No dia 6 é o aniversário de uma de minhas filhas. Quando ela nasceu lembrei que ela me veio no mês da Revolução que prometia unir os operários e criar um mundo novo. Quando minha filha nasceu a Revolução já se dera por vencida, embora a esperança de que veríamos dias melhores permanecesse. A Esperança é um animal bravio, que se camufla perfeitamente com as folhas. A Esperança, como o bicho-folha, é muito antiga, vem acompanhando os homens desde que se entenderam como tal e, desde então, esperam o paraíso enquanto constroem e destroem a Esperança. Este inseto da alma que se esconde em cada uma das gerações humanas, confundindo-se com elas. Cada uma que morre traz a esperança de que outra virá.

O final de outubro, carregado de aniversários de esperanças perdidas, também carrega, para mim, lembranças de esperanças de vida que não se realizaram. Mas foram belas e vitoriosas como as revoluções em seus processos iniciais quando, a morte da antiga civilização ou antigos amores oferece combustível para o novo que constrói, então. Depois a Revolução cansa e morre, como amores de paixão.

Mas então, vem a Esperança, de novo, com novas caras a repetir que somos Tutti Fratelli.

Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)   

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