12 de Outubro: um feriado de desafios

O 12 de outubro é um feriado que pode ter muitas explicações e desentendimentos, pois nele confluem três tradições. Uma delas, a que parece mais simpática é que celebra a infância. Quando eu era infante aprendi e cantei canções que celebravam as “crianças do meu Brasil”, que lembravam ter jesus dito “vinde a mim as criancinhas”. Meus pais não tinham o hábito de nos dar presentes neste dia, como hoje eu faço, juntamente com meus filhos. Mas era um tempo que lembro com nostalgia e, claro não percebia o que chamamos hoje de Direitos da Infância e da adolescência. Embora eu saiba que o trabalho infantil afasta crianças da escola, impede que elas brinquem, em meados do século passado, entre nós brasileiros, o trabalho infantil era visto como meio educacional para o trabalho. Muito comum era a violência contra as crianças, também visto como atividade educativa, pois que se seguia, sem ter lido a Bíblia, a máxima de que o pai que ama não poupa o marmelo. Ainda hoje leio nas postagens do Facebook algumas lembranças, ao mesmo tempo em que se discute o papel da psicologia na formação das novas gerações: Apresentam-se cinturões, palmatórias, chinelos seguidos da pergunta: qual desses psicólogos lhe atendeu. Mas, um dos efeitos colaterais da luta contra a ditadura foi o estabelecimento, em nossa sociedade, do debate sobre os Direitos Universais da Pessoa Humana, logo seguido pelo debate sobre os direitos da criança, o que veio protege-la do violência familiar, do uso da trabalho infantil para a manutenção da família, etc. Vivemos hoje uma possibilidade de melhoria de alguns aspectos da vida humana se, verdadeiramente, cuidarmos das crianças. Mas aprendi, lendo os livros de história, ouvindo-a e refletindo sobre as ações humanas, que sempre quando precisamos de leis para nos dizer que devemos ser bons, é porque bons não somos. Ainda temos muitas crianças fora da escola, sem a possibilidade de aprender os códigos necessários para viver nesta sociedade com dignidade; ainda são muitas as crianças obrigadas a buscar o sustento para sua famílias, pois seus pais não conseguiram encontrar emprego que lhes garantisse a manutenção da família, ou foram desempregados, ficaram obsoletos para serem “úteis” à sociedade, e são tolerados. Vez por outra eliminados. Aliás, este ano, só no Rio de Janeiro, mais de 20 crianças foram baleadas este ano e 10 delas também o foram no Recife.  Mas o 12 de outubro é o dia da criança, vamos celebrá-las e protege-las.

Outra tradição refere-se à tradição cristã católica de nossa sociedade. Um acontecimento, ainda no período português de nossa história, um grupo de pescadores no Rio Paraíba, em Guaratinguetá, pescou, em duas etapas, o corpo de uma imagem e, em torno dela cresceu uma devoção popular em suas casas. Posteriormente a devoção foi encampada pelas autoridades eclesiásticas, com a construção de uma igreja, estabelecimento de paróquia e, crescente adesão das populações próximas à devoção à santinha que foi sendo enegrecida pelo contínuo usa das velas junto à lama fluvial que a envolvia. Milagres se contavam, e muitos os negros escravizados foram recebedores da atenção da Nossa Senhora, negra em uma colônia de brancos escravizadores. No século XX, o Cardeal Leme solicitou que o papa Pio XI proclamasse a Aparecida como padroeira do Brasil. Durante anos, essa festa católica foi dia santificado, mas deixou de ser feriado religioso. Em 1980 que o ditador presidente João Batista de Figueiredo decretou a data como feriado nacional. A Constituição de 1988 manteve o feriado nacional. Nossa Senhora da Conceição Aparecida do Brasil tem um visitado santuário por milhões de peregrinos: em 2018 contou-se mais de 15 milhões. O crescimento do número de cristãos não católicos tem provocado reações contra a devoção à Aparecida, com manifestações de intolerância, especialmente por religiosos de novas igrejas que têm surgido e crescido desde o final do século passado. A existência do vírus Covid 19, neste ano de 2020, parece ter diminuído as explosões dessa intolerância, ou elas não receberam a ressonância jornalística dos anos anteriores.   

A terceira tradição do dia 12 de outubro é a chegada do italiano, a serviço dos reis espanhóis, Cristóvão Colombo no continente americano, o Novo Mundo, como se dizia então. O Paraíso, na descrição do próprio Colombo, diante da exuberância da natureza e da inocência dos seus habitantes. Na minha infância fui ensinado que Colombo descobrira a América. Essa verdade que aprendi sem discutir, pois a ouvi de professores e via como os livros falavam desse genovês que morreu pobre, em um convento, após abrir caminhos para que a recém nascida Espanha viesse a tornar-se a grande potência do século XVI e parte do século XVII. Cresci, li outros livros, como os escrito por Bartolomé de Las Casas, um dos primeiros espanhóis que vieram estabelecer-se na isla de Hispaniola. Ao ver como o paraíso tornava-se inferno por ordem de Colombo e seus seguidores, e também de seus inimigos, Bartolomeu se fez padre de verdade e passou a defender os nativos, descrevendo o que via. Em 1992, aprendi que no México já não se falava de ‘descobrimento da América”, mas de Invasão. Mas nem todos aprendemos nem tomamos novas atitudes a partir desse conhecimento. A releitura de documentos, com novos paradigmas, deu-nos uma nova visão da ação de Colombo, do que se seguiu  desde então. Muitos já lemos As Veias Abertas da América Latina, mas há muito que se compreender as ocorrências desses cinco séculos. Neste ano de 2020, após o assassinato público de um cidadão negro, nos Estados Unidos, a revolta contra o racismo sistemático alcançou, também Cristóvão Colombo que teve algumas das estátuas erguidas em sua homenagem derrubadas, posteriormente recolhidas. De certa forma, descobre-se que o genovês que provou a esfericidade da terra foi, também, patrono do racismo, da imposição de um modo europeu de ser no Novo Mundo.

Este ano de 2020 nos põe em uma encruzilhada e, em um encontro de caminhos sempre há que se tomar decisão sobre que caminho seguir. Neste caso, o 12 de outubro nos põe a debater sobre as crianças, que dizemos ser o futuro, mas precisamos entender o que o futuro delas nós é que criamos; o 12 de outubro nos põe a debater sobre a liberdade religiosa e a apropriação das devoções populares pelos sistemas religiosos estabelecidos, quase sempre em detrimento dos populares; o 12 de outubro nos põe diante da decisão de continuar a construir o Paraíso, ou destruí-lo, como fizeram Colombo, Cortez, Pizarro, Bufallo Bill, David Cockett, Tomé de Souza, Mem de Sá e assemelhados.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.