Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

Neste domingo, próximo às 22 horas, em um telefonema, recebo a cobrança sobre o abandono do blog, quase um mês sem um texto novo. Digo que as novas atividades como professor me obrigam a estudar novas técnicas, preparar aulas e acompanhar o estudo de quatro dezenas de estudantes de diversas áreas: História, Geografia, Serviço Social, Filosofia, Farmácia, Medicina, que querem aprofundar conhecimento na história das religiões e igrejas no Nordeste. Em outras oportunidades já recebi alunos de outros cursos, mas não em tão grande número. Creio, e espero, que todos os professores estejam tendo esta experiência e dela aproveitando e deixando-se aproveitar pelos questionamentos que chegam de estudantes de outras ciências.

Esta experiência me põe a repensar sobre o tempo, o meu tempo. Tempo de leitura redobrada para atender a demanda desses jovens que desejam conhecer melhor o povo para quem e com quem vão trabalhar. Toma tempo, produz cansaço, traz alegria e réstias de esperança. A pandemia forçou essas aulas à distância, provocou a fuga do cotidiano, abriu a perspectiva de ver além do estabelecido na Matriz Curricular, ou Grade Curricular, na qual está presa a formação do estudante. Este semestre tornou possível olhar para além do que estava estabelecido, ou se estabelece pelas influências que alunos mais antigos exercem sobre os novos no momento da escolha da disciplina eletiva. O estudante, neste semestre especial viu-se mais livre para escolher, sem a sofrer influência de experiências de outras gerações, às vezes negativa, sobre as disciplinas ou sobre os professores. Livre para matricular-se, para ficar até o término do semestre, ou abandonar as aulas, caso elas não estejam contribuindo para a sua formação. Esta foi uma consequência da Covid 19, que, a mim, parece positiva, embora me force a trabalhar mais.

Ao lado desta alegre surpresa que me força rejuvenescer, tenho acompanhado o crescente desastre brasileiro. A pandemia, mais que criar problemas, tornou explícito o descompromisso dos que governaram o país desde o fim da ditadura, o descompromisso real com a democracia e com o povo brasileiro. Talvez, sem o tom arrastado de Getúlio Vargas, continuaram dizendo “trabalhadores do Brasil…”, enquanto evitaram modificar as estruturas que fazem um país rico com um povo pobre, condenado a subalimentar-se, enquanto assistiu, nestas quatro décadas crescer o número de milionários e o de favelas. Para mostrar que houve mudança, os intelectuais desses governos passaram a dizer que as favelas eram comunidades (penso no desgosto dos sociólogos clássicos) ou assentamento urbano de condições precárias. E os muros das casas e edifícios cresciam enquanto o desalento do povo fazia o mesmo. Continuamos a ouvir Dom Hélder lembrar que enquanto uns, a maioria, não conseguem dormir porque estão com fome, outros, a minoria, não dormem com medo dos que estão com fome. Por isso cresceu o número de empresas de segurança, de carros particulares, sendo que alguns são blindados. Em algumas cidades, esses que enriqueceram sem permitir que houvesse um acesso para além dos iogurtes, frangos e pizzas para dos trabalhadores empregados, deslocam-se apenas em helicópteros e aviões. Não os comerciais. A Pandemia mostrou que escolas construídas no tempo de Getúlio Vargas ofereciam mais espaços para os estudantes desenvolverem suas múltiplas potencialidades. Não tenho dados além do que meus olhos registraram nas cidades que, por razões de minha profissão fui levado a conhecer, mas creio ter sido um grande erro construir-se escolas sem bibliotecas, área para a prática de esportes e artes, mantendo uma educação baseado na escrita das palavras que estão postas nos livros didáticos. A mesma pressa que fez a Ditadura Civil-Militar incentivar a criação de faculdades no interior dos Estados, assistimos na criação de universidades inauguradas em prédios de escolas de nível médio, ou em salas de centros de compra, enquanto se arrumava verba para a construção de espaços que acomodassem a nova unidade de ensino superior. As duas iniciativas trouxeram benefícios, quem há de negar?, mas ambas escancaram a falta de planejamento para a criação de um sério sistema de ensino capaz de gerar e educação e as habilidades necessárias no século XXI. Apesar de pedagogos chamarem atenção de que uma boa sala de aula deveria ser formada por no máximo trinta alunos, os secretários de educação dos Estados e municípios, continuaram com salas de 60 alunos. O mesmo ocorre no ensino superior. E tudo justificável por conta da Grande Evasão, que existe, entre outros fatores, pelo desconforto das salas lotadas – algumas vezes sem cadeiras para os alunos sentarem-se – e da impossibilidade de um professor acompanhar tantos alunos simultaneamente. Economizaram na construção das salas, na não construção de bibliotecas, áreas para a prática de esportes e artes, economizaram no número de professores. Agora, como fazer para retornar as aulas cumprindo as exigências do distanciamento necessário? Para onde irão os alunos que não podem mais ficar na mesma sala simultaneamente? Como dividir os espaços para novas turmas? Serão construídas novas salas? E serão contratados novos professores, serão compradas novas carteiras? Todas essas perguntas nos mostram que, apesar de muito falarem em educação de qualidade, pouco se construiu de democracia, na sociedade e nas escolas. Um pedagogo escreveu um livro com sugestivo tema: quanto mais se falou de democracia na escola menos ela foi democrática, quanto menos se falou em democracia, mais ela foi democrática.

Nesse mesmo período ampliaram os plenários dos parlamentos municipais, estaduais e federal. E também ampliaram os espaços para que os juízes possam trabalhar com dignidade, gastaram-se fortunas em prédios e na manutenção dos privilegiados, acusados por Getúlio Vargas, em sua Carta Testamento, de devorarem as forças do país. E fizeram isso enquanto colocam em jaulas os criminosos mais pobres, e continuam a manter a divisão das prisões para quem tem diploma universitário e para os que não conseguem chegar lá. Há uma relação entre isso e o descaso com a educação. Quando algum poderoso que não tem diploma tem que ir à cadeia, logo se busca uma solução, e proíbem que lhe ponham algemas. E mudam as leis para que jamais sejam condenados.

Mataram a democracia,  não enquanto engordavam o pato, mas enquanto se engordavam do trabalho dos patos. Ainda estamos em 1954. No ano seguinte nasceu Bolsonaro. Já ia me esquecendo que ele continua o trabalho dos antecessores, com sotaque arcaico e mais perigoso.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.