Drama 18 – Hiroshima, Xingu e Casaldáliga

É madrugada do dia 6 de agosto, setenta e cinco anos depois da explosão de uma bomba sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Naquela manhã cerca de 80.000 pessoas morreram imediatamente após a passagem do Enola Gay. Três dias depois, o Bocks’Car lançou outra bomba sobre Nagasaki, e 40.000 pessoas tiveram o mesmo destino. Assim terminava a Guerra do Pacífico e tinha início a Era Atômica, uma era na qual todos os habitantes da terra podem ser evaporados instantaneamente, as civilizações destruídas, pois elas só existem se os homens existirem. Neste 6 de agosto, um vírus que parece ter chegado no Brasil no final do ano 2019, provocou a morte de 90.000 pessoas e, ao término do mês de agosto, possivelmente terá matado cerca de 120.000 brasileiros. Não foram mortas instantâneas, como as que ocorreram no final do Império Japonês, forçando o imperador admitir         que não era uma divindade. As divindades morrem quando expostas ao público, perdem suas forças quando deixam de ser mistério. Ao longo da jornada, os homens tiveram muitos deuses e ainda os têm, mas eles perdem com a racionalidade das bombas. As bombas são racionais, os deuses, seus crentes e os vírus não o são.

No  começo dessa madrugada, um historiador lembra-me que em 1960, “pela primeira vez, em toda a história do Brasil, um candidato da oposição ganhou uma eleição para a chefia do executivo”, seu nome era Jânio Quadros, governou com minoria no Parlamento, pois quatro quintos dos parlamentares estavam ligados à eterna situação que governa o Brasil desde sua fundação: a defesa da propriedade da terra para si. Esses parlamentares ficaram bastante surpresos quando, por decreto, Jânio Quadros criou, em 14 de abril de 1961, o Parque do Xingu, a primeira demarcação de terras indígenas da história republicana. Foi uma mexida na tradicional política de controle de terras. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1961 foi uma marchinha que dizia: “eu não quer colar, índio quer apito”, uma mostra de como a questão era de conhecimento geral.  Começava um novo tipo de barulho. Em agosto o presidente disse que não suportava as pressões de “forças ocultas” e renunciou. Então, quarenta anos depois, a floresta amazônica arde em chamas, o Pantanal arde em chamas, terras indígenas demarcadas são invadidas, motosserras são acionadas e o chefe do executivo nacional tenta passar uma lei que proíbe fornecer água potável, atendimento médico aos índios atingidos pelo vírus que tem matado mais pessoas que as bombas sobre o Japão. A racionalidade de Truman, que o levou à decisão de jogar à bomba sobre o Japão para pôr fim ao conflito, ainda que isso promovesse tantas mortes, é semelhante à decisão do presidente do Brasil a negar água e atendimento à saúde aos índios: é uma questão de gasto, uma questão econômica.

É essa racionalidade econômica que tem impedido a expansão do saneamento básico: fornecimento de água, recolhimento de lixo e esgoto, para todo o país, para toda a população. Nota-se que o vírus Corona 19 mata mais nos lugares onde não há a oferta e uso desses bens sociais, embora sejam as pessoas que moram nesses locais, os que trabalham e vivem pelo pão diário. Os que sempre estão governando fazem com que seja sempre baixo o pagamento do trabalhador. O mesmo arrocho salarial que vem sendo posto aos trabalhadores brasileiros desde sempre, vem se confirmando com a aprovação das atuais reformas econômicas e sociais, sempre em detrimento do trabalhador, pois a razão sempre aponta que o sucesso é o acúmulo de renda, é ser participante dos clubes dos 20, dos 15, dos 9, dos 5, dependendo do grupo que represente, em determinado momento, o interesse dos que sempre governam.

6 de agosto de 2020, o número de mortes pela Covid 19, no Brasil, ultrapassará 95.000.

Enquanto isso, está vivendo seus últimos dias o primeiro bispo da Prelazia do Alto Xingu, Dom Pedro Casaldáliga, morre de uma vida gasta na defesa dos mais pobres, dos brasileiros roubados de seus direitos básicos.

PS. Historiador Jorge Caldeira, História da Riqueza no Brasil; Haroldo Lobo é o autor da marchinha Índio quer apito.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.