Drama 16 – As pestes melhoram os seres humanos?

Drama 16 – As pestes melhoram os seres humanos?

Vivemos momentos difíceis que nos confrontam enquanto sujeitos e enquanto sociedade. Esta não é a primeira vez que a humanidade enfrenta pandemias; no passado o mundo era menor, Gilgamesh e Noé venceram o dilúvio e, o que era entendido como “mundo”, sobreviveu. O Egito sobreviveu às pragas, e sofreu, até que o faraó sentiu a dor com a morte do filho. Há sempre o sacrifício de um filho para que o mundo sobreviva. Boccaccio assistiu sua cidade morrer e viver uma peste enquanto contava histórias. Algum tempo depois as populações Inca, Maia, Asteca, Tupi, Aruaque e muitas outras foram dizimadas por doenças que não conheciam, além de terem travado conhecimento com a pólvora. Carlos II aproveitou a passagem da peste por Londres para modernizá-la. Depois veio o reino da ciência e, em velocidade crescente, a humanidade foi estreitando os laços e os limites geográficos do mundo. Estamos vivendo uma verdadeira pandemia que atinge todos os quadrantes do globo simultaneamente, e vai ficando quase uma companheira permanente, apesar de sabermos que já poderíamos tê-la dominado, enquanto estudaríamos para inventar, descobri a vacina, essa solução dos tempos modernos. Bastaria apenas lavar as mãos com água e sabão, passar um tempo em casa, usar máscara protetora quando precisasse sair. Mas descobrimos que esses benefícios sociais não foram postos ao acesso de todos; como no tempo do faraó, o conforto é assegurado a uns poucos.  

Sabemos que, como dizem os insensatos que ocupam posição de governo, sempre morrem alguns em situações como essa que estamos a viver, mas, ainda assim, haverá sobreviventes suficientes para continuar o processo de construção do que agora estão apelidando de ‘novo normal’. Mais ou menos assim dizia Carlos II no século XVII, em seu castelo. No seu tempo não havia grande parte do conhecimento que desde então produzimos e acumulamos. Aliás, Carlos Stuart II costumava dizer que as pestes servem para melhorar a humanidade. Assim pensam muitos que escrevem nas redes sociais, pois creem que o sofrimento fará melhorar o comportamento moral de nossa sociedade, tão impessoal, tão individualista, tão pouco solidária. O que temos notícia é de uma melhor organização de recolhimento de coisas a serem distribuídas para os mais necessitados, o que é muito bom. Em verdade, essas ações beneméritas, caritativas ou solidárias já ocorriam antes da Covid 19, em momentos especiais do ano, como as festas natalinas, o início de um novo ano, no dia das crianças, etc.. Agora aumentou o número de pessoas que assim agem, ou as emissoras de televisão resolveram amplificar a audiência para essas ações.

Sairemos melhores, após esses dias que não consumimos filas de restaurantes, Filas de ônibus, filas de cinema, e muitas outras filas? Sairemos melhores após três meses sem irmos à praia, ao campo de futebol, às academias para cuidar dos corpos a serem elogiados e invejados pelos que não cultivam esses hábitos? Sairemos mais espiritualizados após esse período afastados dos garçons, mas sempre com um motoboy que nos traz pizza ou outros alimentos que mandamos preparar nos restaurantes aos quais não podemos ir? Se não nos alimentamos como antes, no período pandêmico, não fizemos penitências nem jejum, o que fizemos não foi escolha pessoal, mas imposição das autoridades. Aliás, fizemos o possível para não nos abstermos de nada, ainda que isso custasse uma maior exploração dos invisíveis trabalhadores transportadores de alimentos. Em que esse sacrifício nos fará melhores?

Ah! sim, a pandemia serviu também para que os governos descobrissem os indivíduos invisíveis, esses que não tinham emprego nem renda para atravessar o tempo da peste. Não imaginavam que eram tantos, apesar de estarem nas ruas. Bem, estavam distantes das ruas onde moram os grandes empregadores, os que fazem as leis. Foi uma surpresa notar que há tantas pessoas em situação de miséria, que vão morrer, que estão morrendo, que morreram, porque não tinham água em casa, no lugar onde moravam. Sendo que alguns nem casa têm. O ‘banco social’ ficou surpreso com tanta gente nas portas de suas agências. Como fazer para que essas pessoas não morram de fome? O governo, forçado pelas circunstâncias, viu-se obrigado a criar um “auxílio emergência”. Emergência, dizem os dicionários, é algo que deve ser atendido imediatamente para que seja evitada uma situação terminal. Pois bem, o banco social encontrou um meio de atrasar em dois ou três meses a entrega do  “auxílio emergencial”. Depois descobriu-se que mais de 600 mil pessoas empregadas e em boa situação econômica solicitaram e receberam o auxílio emergencial que seria para os que estavam, ou estão, em situação de emergência.

Estamos vivendo uma crise sanitária, mas não temos ministro da saúde; não temos ministro da educação. Em compensação temos um presidente, aposentado precocemente do exército por não ser bom soldado, que não respeita as leis do país, e que pratica o charlatanismo médico, prescrevendo medicamentos para a população. A rede social Facebook, forçada pelos grandes capitalistas, saiu em  busca de páginas que publicam mentiras e promovam o ódio e, para espanto de todos, algumas dessas páginas eram criadas em computadores da presidência da república, em gabinetes de senador e deputados. Sairemos melhores dessa pandemia, dessa situação de quase anomia social?

Alguns dos isolados socialmente saíram para beber e farrear nas noites cariocas e outras noites. Assistimos que saíram de seus locais de isolamento dispostos a não obedecer qualquer regra, mas estavam sedentos para dizer quem são e humilhar, destratar os fiscais, trabalhadores a serviço da sociedade, explicitando o ódio que cultivam pela humanidade. Saíram melhores? Bobagem pensar que o sofrimento alheio melhora a quem só cuida de si, e vive da vida dos demais.  

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.