Cassandra e Boccaccio

A cada da seu custo, aprendemos, sem jamais aprender que o futuro só é vivido quando for presente, por isso somos tão pré ocupados com o que virá. E do virá, apenas algumas pequenas certezas que se farão reais, não saberemos como nem quando: a morte nos chegará e tudo que é feito escondido um dia será do conhecimento geral. É o que assistimos e verificamos a cada dia. Quantas programações suspensas neste ano porque apareceu a natureza, aliada à esperteza humana, na forma de um vírus que se tornou pandêmico. E isso não ocorreu apenas, como desejam alguns, pelo interesse de algum país, embora interesses de grupos sempre existiram nas epidemias do passado. Foi o interesse de um chefe guerreiro, perdido no seu intento de dominar uma cidade, que deu início à disseminação da cólera durante a Idade Média, ao bombardear uma cidade com os cadáveres. O movimento dos comerciantes, dos peregrinos (os turistas da época), dos soldados completaram o serviço. Milhares morreram, as economias mudaram, as crenças foram abaladas e, como dizem os livros sagrados, viu-se que nada é seguro. Entretanto, não aprendemos que o resultados de nossos atos, os mais simples e escondidos, afetam e cambiam os projetos, criando resultados impensáveis. O futuro jamais é como o pensamos. O pensamento de alguns visionários observadores podem nos apontar algumas das consequências de nossas ações, mas isso não significa que os que sonham dominar o futuro, por julgar seus muros invencíveis, levarão em conta o que disse Cassandra.

Todo o ano de 2020 está marcado pela pandemia do Covid 19, talvez o século XXI venha a ser conhecido, no futuro, pelo século da pandemia, semelhante ao século XIII, famoso pela Peste Negra. Mas devemos dizer talvez. Bem antes do Novo Coronavírus, parece que é o terceiro da dinastia, as forças políticas mundiais estavam em processo de renovação, quer dizer, as lideranças começavam a ser reorganizadas. Evidentemente nenhuma das nações que dominaram os século XXVIII ao XX, pareciam capazes de enfrentar as novidades que elas haviam criado.  Enquanto os literatos e cineastas europeus dedicavam-se a dissecar as angústias e a futilidade da vida entediada dos ricos que os levaram às trincheiras de 1919, e diziam, entre alegria e saudade que Deus havia morrido e as igrejas eram seu túmulo, o Novo Continente crescia em sucessivos avanços, vencendo pequenos obstáculos, mas firmes em direção à Nagasaki, insatisfeitos com a Hiroshima. Novas vitórias para o espetáculo colorido e de incessante movimento. Sem deuses a quem sacrificar, o século cultuou-se e visitava-se na multiplicidade de disneylandias que substituíram Jerusalém, Roma, Compostela, que não mais eram lugares de oração e adoração, mas uma experiência a ser vivida e contada em livros de memória e fotos ou filmes. E o movimento dos turistas, comerciantes, religiosos, vendedores da fé viu-se obrigado ao isolamento social. Na quarentena há que se perguntar: De quantos Boccaccio, carecemos, pois Cassandra não morreu em Tróia, se é que morreu.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.