Drama 14 – Não consigo respirar

“Não consigo Respirar”, Uma frase simples, dita por um homem simples, prostrado em uma rua, quando estava sendo sufocado pela pressão de um joelho, com o rosto preso ao asfalto. Por não poder respirar, morreu. O fato ocorreu durante uma pandemia que está a matar milhões em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos da América do Norte, onde o fato ocorreu. É a pandemia do vírus Corona, uma nova versão do Corona que percorreu mundo duas vezes neste século, que foi apelidada de Covid -19, ataca os pulmões, dificultando a respiração daquele que foi tocado por esse invisível companheiro que pode leva à morte. Um policial não é um vírus, mas, se não for bem treinado e educado moralmente, pode deixar parte da população sem respirar, temerosa de sua ação. Algumas pessoas só conseguem entender a possibilidade da morte quando ela chega bem próxima, mas para os mais ricos e os que, em nosso tempo, podem pagar os médicos e os remédios por eles ministrados, a morte é uma visita rara, assim como é a visita da polícia. Aliás, quando a polícia tem que interferir em suas vidas, ela deve seguir tantos protocolos, que é quase impossível que lhes toquem. E se o fizerem, terão outros policiais ao seu encalço. Assim é o mundo no qual vivemos, especialmente em nossa República; nela o presidente interfere em todos os níveis para garantir que a sua prole e a sua riqueza tornem-se intangíveis. Tal situação não ocorre com as populações pobres, do mundo inteiro, elas suspendem a respiração quando um policial se aproxima. A partir daí tudo fica incerto.

No Brasil da Pandemia do Covid -19. Já morreram mais de cinquenta mil pessoas. Pobres e ricas, mas sabemos que os mais pobres mortos são em números bem maiores que o número dos ricos que morreram. Aos pobres falta assistência médica, moram em lugares onde não chega água, não tem escola para todos os meninos, meninas, rapazes, moças. Os médicos não chegam aos ambulatórios que por ventura existam nesses lugares. Afinal não estudaram seis ou sete anos para subir morros ou ir viver em cidades do interior do Brasil que não possuem internet, nem bares ou boates elegantes. Não foi para isso que eles gastaram os anos de sua juventude frequentando universidade pública, paga pelos impostos tirados exatamente do trabalho dessas pessoas que moram nesses lugares distantes da “civilização”. Não, sem esses confortos esses médicos não poderão respirar, como se prova por sua ausência no que costumo chamar de Brasil Profundo, repetindo o que aprendi de Jarbas Maciel, um dos meus mais queridos professores.

Como o Covid -19 atinge os pulmões, este ano não houve a queima das fogueiras em homenagem aos santos Antônio, João e Pedro. As moças não precisam mais de Santo Antônio para encontrar um marido (será que alguém ainda quer?) pois algum aplicativo apontará alguém para o próximo (?) final de semana. Tivemos menos fumaça, não houve fogos para acordar São João do Carneirinho, e este ano não se fizera compadres e comadres de fogueira. Hoje, as viúvas não acenderam fogueira ao seu protetor, São Pedro, hoje mais conhecido como primeiro papa. Sim, São Pedro intercedeu a jesus por sua sogra, uma mulher sem companheiro que lhe protegesse. Com a Previdência Social, esperava-se que as viúvas tivessem mais proteção do estado, dependessem menos de suas orações a São Pedro, mas neste Brasil, viúva garantida, só se for de militar, que não tem filha para casar, pois se casar perde os cuidados que o Estado deveria conceder às viúvas dos trabalhadores mortos em serviço ou, depois do trabalho se encontrarem algum policial brigado com o chefe, com a mulher ou de cota atrasada com a milícia. O jornal O Globo de hoje (28/06) informa que o número de mortos pela polícia cresceu 26% durante a pandemia. Talvez os policiais estejam esperando um comenda encomendada pela família presidencial.

Ao contar 50.000 mortos pelo Covid 19, o presidente do Brasil convidou um sanfoneiro limitado para uma Ave Maria, querendo homenagear os mortos. Foi seu primeiro suspiro de solidariedade. O sanfoneiro era limitado, cantava mal e Nossa Senhora ouviu porque ela é a Mãe da Misericórdia. E precisamos dela como Advogada nossa contra o mal que atinge o Brasil a partir dos palácios e casernas.  

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.