Drama 13 – Isolamento e aproximação

Dezesseis de junho, 90 dias de isolamento em casa, mas com múltiplas  possibilidades de comunicação com as pessoas. E, mesmo assim, não ouvimos delas e, ainda que elas estejam em algum de nossos grupos, continuamos não ouvir nem ler nada delas. Até mesmo enviamos algo, fazemos algum comentário no grupo, mas não há resposta. Creio que assim também pensam e sintam que nossas vidas já não fazem parte do mesmo curso. Talvez  um dia tivessem feito, e não cuidamos de nos aproximar.

Os regatos dividem-se, às vezes por causa de uma pedra, uma pequena elevação inclinada do solo e, os milímetros iniciais, com alguns metros já não se veem, e nunca mais irão se tocar. Aqueles instantes em que participavam da mesma poça inicial nem mesmo será recordado, nem mesmo a poça, após algum tempo. Assim algumas famílias se perdem de si mesma após quatro, três, duas, uma geração. E não temos notícias de nossos tetravós. Nem dos primos, tios, às vezes irmãos que entraram em uma barca, tomaram outro efluente, talvez por engano ou acaso. Seja como for, ocorre a dispersão. A difusão da força originária que perde sua força, mas pode ser que guarde alguma presença naqueles que nem sabem mais de onde vieram.

Alguns esquecem por quererem esquecer, não desejarem lembrar. Esses estão sempre lembrados dos seus esquecimentos que, de surpresa um vento ou uma folha de papel ou de árvore, força a lembrança do que deveria ter sido esquecido e, por um instante deseja lembrar e um sorriso que só a alma percebe, aparece no rosto que não se vê: o seu rosto.

Gostaríamos de esquecer o que estamos passando neste isolamento social que nos obrigar a lembramos de nós mesmos, esquecidos que estávamos no azáfama diário de produzir objetos e palavras qnem ue quase nos saiam automaticamente, pois o fazíamos sem o perceber. Não dava tempo, tínhamos poucos minutos para dizer o que pensávamos e sentíamos, tudo estava metrificado, contado, também no sentido de dizer.

O isolamento social talvez possa nos tirar do isolamento, não daqueles que se foram por quiseram, mas daqueles que não queriam ir, que não queríamos que eles se fossem, embora nós os tivéssemos os deixando enquanto não conseguíamos vê-los apenas por suas roupas, sua frequência em lugares de ocupação, quando não nos ocupávamos deles, mas das coisas que eles carregavam em seus ombros, enquanto desconfiávamos de seus sorrisos e agrados. O isolamento social pode nos pôr em contato com o que evitávamos, as pessoas e suas poesias: os seus fazeres e sonhos. Engraçado que, um vírus nos separou corporalmente e nos oferece a possibilidade de nos rever e os unir, tocando, teclando os abraços que nos envergonhávamos de trocar. Será que o faremos, ainda?   

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.