É possível o Corpus Christi no isolamento social?

Drama 12

Desde 16 março estou em quarentena determinada pelo governo do Estado e pela ideia de que devo evitar a contaminação viral do Covid19. Aproveito o tempo para aprofundar o relacionamento com filhos e esposa, mas também com amigos, conhecidos e desconhecidos que, eventualmente acessam o www.biuvicente.com , e também par refazer algumas leituras, pesquisar textos que nos concedem através dessa maravilha que é a rede internacional de computadores. Com ela o isolamento deixa de ser social para ser apenas distanciamento físico. Neste isolamento temos a possibilidade de conversar com o mundo e sair do isolamento.

Creio que foi no final dos anos sessenta que o tema de redação de um dos vestibulares de uma universidade foi “Homem algum é uma ilha”, título do livro do monge Thomas Merton, tomado de empréstimo à obra de John Donne. Nesse livro, publicado pela primeira vez em 1955, o monge trapista trata de muitos assuntos sociais que eram vividos naquela época. Apontava ser impossível alguém viver sem tocado pelos dramas vividos pelos outros seres humanos, que a nenhum humano era dado o direito de escusar-se de participar da solução dos problemas que infligem a humanidade, pois não há uma solução apenas para o indivíduo, o indivíduo só terá solvido seu problema se todos os demais forem alcançados nessa solução. Sempre me encantou como um monge trapista, isolado em seu mosteiro, pode influenciar tanto uma ou mais gerações. Tive a felicidade de passar quinze dias do ano de 1972, na abadia Nossa Senhora de Getsemani, no Kentucky, Estados Unidos da América do Norte. inclusive conhecer a sua ermida, mais isolada no bosque. E foi naquele isolamento que Thomas Merton refletiu, escreveu e conversou com o mundo sobre os problemas sociais que, infelizmente, não conseguimos resolver. E isso em uma época anterior à esse acúmulo de meios que hoje temos para nos comunicar com o mundo, com as pessoas.

Então recebo de João Paulo Lucena, em meu isolamento, a pergunta se não escreveria algum texto sobre o Corpus Christi, uma festa que os católicos celebram desde o século XIII, a partir da região que hoje é Bélgica. Esta é uma festa da Eucaristia, uma celebração na qual os católicos refletem sobre a doação da vida. Não é apenas uma adoração estática, mas a verdadeira adoração é cuidar para que todos tenham o pão. A festa de Corpus Christi lembra que nenhum homem é uma ilha, pois o católico sabe que ele é convidado para ser um com todos, na grande eucaristia, que divide o pão e o vinho, divide as riqueza para que nada falte a nenhum dos seus semelhantes.

Interessante é que Thomas Merton decidiu ser católico após assistir uma missa na Igreja do Corpo de Cristo, próxima do campus da Universidade de Columbia, onde então era professor; na mesma igreja foi batizado e comungou pela primeira vez. Estava com 24 anos de idade, no ano de 1938. Em 1941 foi aceito para viver na Abadia de Getsemani, e em 1949 recebeu a ordem sacerdotal. Enquanto fazia suas tarefas na abadia, Merton usava as duas horas de repouso para escrever, escreveu mais de sessenta livros sobre direitos humanos, espiritualidade, armas nucleares, pacifista lutou contra a guerra do Vietnam, diálogos com a diversas religiões. Viveu até 10 de dezembro de 1968, na Tailândia, onde participava de uma ação com monges budistas.

Neste isolamento social, cabe ficar atento aos que provocam cisão entre os homens, cuidam de destruir o pouco de humanidade que temos construído, agir para que formemos um corpo saudável, uma sociedade que volta-se para a construção da igualdade, da justiça, da compaixão.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.