Drama 11 – Os soldados de Hitler e os dias de hoje

Os dias dos anos de nossas vidas passam sem que os notemos, exceto em alguns momentos animados pela memória, essa constante companheira que adulamos e, por vezes não desejamos a sua companhia. Aprendemos a contar o tempo, a sentir como ele se esvai de nós, acompanhamos, não apenas fisicamente, como os animais e vetais, mas conscientemente avançamos para o término da contagem. Na maior parte da vida não nos importamos com isso, pois abstraímos, na maior parte do tempo de nossas vidas, o tempo que vivemos em direção do fim do nosso tempo. Há também os que se ocupam com o final dos tempos, ainda que saibam que não estrão lá para ver, embora alguns desenvolveram a certeza de como ocorrerá o final dos tempos. No tempo que organizamos, a ocorrência de alguns eventos foi organizadora da vida, e então celebra-se o momento daquela ocorrência e a temos como marco da vida do grupo que se renova ao passar do tempo. Aquela dia é celebrado no ciclo da vida do grupo, enquanto o grupo existir.

Um desses eventos cultuados pelo grupo ao qual pertenço, e creio que os eu lerem essas linhas também pertençam, é o 6 de junho, quando rememora-se o sacrifício de milhares de vida jovens em praia francesa, em um grande desembarque para liberar a França do domínio dos nazistas. Para alguns países essa batalha marca o início da vitória dos países aliados – Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, Suécia e outros. Conheci essa história, não nos livros escolares, embora eles contem, mas  o cinema, em um filme que chama aquele dia como o “Dia D”, apresentava a capacidade logística, a produção industrial, a capacidade econômica daqueles países, mas principalmente a entrega gratuita da vida pelo ideal da liberdade, de acabar com os nazifascistas. Depois li muito a respeito e, aprendi que muitos dos mortos talvez não soubessem as razões da morte que para eles estavam reservadas. Mas eram tantos os que morreram naquela e em outras batalhas que, manteve-se o costume moderno de homenagear a todos com o túmulo do Soldado desconhecido. Em minha primeira adolescência gostei da segunda guerra, também por causa de outro filme que heroicizou a vida militar, o enfrentamento da morte para que todos tivessem melhor vida. Agora trata-se do filme Fugindo do Inferno. Uma plêiade de heróis, especialmente o personagem vivido por Steve McQeen. Cresci com esses heróis e fui aprendendo na vida que nem todos os militares são capazes de morrer pela seu país, mas alguns são capazes de matar seu país para manterem-se vivos, enquanto puderem. Assim ocorreu com muitos oficiais nazistas. Terrível é assistir os derrotados na segunda guerra estarem, por algum tempo, vitoriosos na minha pátria, pois neste mesmo dia 6 de junho, o tenente terrorista decidiu continuar a agir covardemente com o Brasil, ao tentar impedir que ele saiba as consequências mortais dos seus erros na condução da nação no enfrentamento da pandemia. A parte quase positiva disso é que, fica mais explícita a sua relação com os derrotados naquela guerra terminada, fisicamente, em 1945, mas espiritualmente ainda a ser vencida, como mostra o atual desgoverno do Brasil.

O que não é possível esquecer é que a maioria dos Soldados de Hitler não usavam fardas, eram pessoas comuns que assistiam a brutalização dos ciganos, dos judeus, dos homossexuais e de outros grupos perseguidos, silenciaram, e o silêncio fortaleceram os soldados fardados e armados. Hitler, Mussoline, Pinochet, Médici, Geisel, Figueiredo, Costa e Silva, Daniel Ortega, Hugo Chavez, Maduro, Idi Amin, Papa Doc, todos eles tiveram soldados sem farda, soldados que eram caixa de mercados, caixeiros viajantes, professores, vereadores, pequenos empresários, empreiteiros, bancários, banqueiros, donos de indústrias, ferramenteiros, padres, pastores, prostitutas, estudantes, advogados, médicos, vendedores de seguro, mães de família, enfermeiras e tantos outros disfarces. Esses soldados criaram o poder, mantiveram-n0, depois sofreram as consequências, alguns esqueceram dos seus feitos, do orgulho que sentiam, e calaram-se. Mas mantiveram para si a sua história. Assim é que se explica a vitória espiritual desses abjetos seres humanos que existiram para evitar que a humanidade floresça.

Neste 6 de junho, o atual presidente do Brasil, com um soldado fardado à frente de um ministério da saúde, apoiado com a criatividade de um soldado empresário, decidiu ocultar o número dos mortos do genocídio que ele tem criado. E ele só faz tais coisas porque sabe que tem um exército que não usa fardas. Esse exército, nem o espírito do major vivido por Setve Mcqueen, parece ter conseguido derrotar.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.