Drama 11 – Mais que nunca é preciso cantar

Mais que nunca é preciso cantar que prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão

Final do mês de maio é a aproximação do meio do ano. Afinal passou a páscoa e, para alguns povos é a época da colheita ou das férias de verão. Mas isso era nas sociedade agrícolas que eram organizadas de acordo com a sequência das estações. O mundo moderno, no sentido de ser o mundo industrializado, pleno das máquinas que a matemática do engenheiro uniu-se à criatividade dos inventores segue outros modelos, pois a noite não mais existe para descansar e preparar-se para outro dia de trabalho no campo. A noite e o dia continuam existindo mas carregam muitas outras possibilidades de uso, especialmente para a diversão. Dorme-se outra hora, ou não se dorme. O mês de maio, no mundo católico, o mês de Maria, era o período de usar as noites todas indo à igreja para a reza do terço, da Ladainha, finalizando-se na coroação de Nossa Senhora como Rainha, dos Homens, dos Anjos, do Mundo.

O mês de maio começou a ser diferente em 1969. Aquele foi um ano carregado medo, aqui no Brasil. Toda uma geração estava começando a experimentar o que era viver em uma ditadura, embora ela existisse desde 1964, quando, militares e empresários depuseram um presidente que perdera a liderança da nação. Será que a tivera em algum momento? Essa pergunta existe, embora seja parcamente exposta. Indivíduos e comunidades não são seduzidos pela ideia de praticar dizer a verdade que pode lhes envergonhar. O ano de 1968 foi mais glorioso: nos Estados Unidos da América do Norte pelo festival Woodstock, um engano que virou sucesso; na França, pela ocupação das universidade realizada por estudantes e pela quase deposição De Charles De Gaulle; pela Primavera de Praga. Foi, também, o ano do Massacre na Universidade do México; e, no Brasil, foi marcado pela Passeata dos Cem Mil ocorrida em junho, ocorrida três meses após a morte de Edson Luiz, em março, no restaurante Calabouço; pela edição do Ato Institucional de número 5, em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, protetora dos olhos. Assim, 1969 começa e vive a instalação do medo. Para os que viviam em Pernambuco, este medo tornou-se tangível pelo atentado contra a vida de Cândido Pinto,  presidente da União Estadual dos Estudantes, ocorrida em abril; no mês seguinte, pelo sequestro seguido do assassinato do padre Antônio Henrique de Pereira Neto.

Ao longo de 1968, a Arquidiocese de Olinda e Recife tomou como tema central de sua ação a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, celebrando seus vinte anos. Claro que era uma ação com o objetivo de alertar o descompromisso do Brasil em assumir a realização do projeto universal. Creio que essa foi a razão do ódio profundo que a ditadura cultivou contra Dom Hélder Câmara, o primeiro grande líder defensor desses direitos. Participei ativamente da preparação e da realização dos eventos ocorridos no Colégio São José e na Paróquia do Arraial do Bom Jesus, em Casa Amarela. Dom Hélder nos apontava o caminho de fazer a Revolução dentro da Paz, em um período em que a violência começava a tomar novas formas. Vivíamos na apreensão do que ocorreria no dia seguinte. E os dias seguintes nos colocaram diante do inimaginável: mataram um padre por não puderem atingir o bispo. Um recado cifrado que foi respondido com orações e a reunião de quase todos os setores da sociedade. Sequestrado após uma reunião com jovens de classe média, moradores do bairro de Parnamirim, jovens de famílias tradicionais, cujo nomes lemos nos livros de história, viram, sem se aperceber, o sequestro. O corpo do padre foi encontrado dois dias depois, massacrado pela tortura dos agentes do regime. A comunidade católica entoava, na Matriz do Espinheiro, o hino da Campanha da Fraternidade daquele ano, que tinha como tema: FRATERNIDADE E VIDA: DOM E COMPROMISSO. A canção, ainda hoje cantada, diz assim: “prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão.” Durante o cortejo que levou o esquife do padre Henrique desde o Espinheiro até o Cemitério da Várzea, soldados do exército nos acompanhava dizendo que era par nossa proteção, mas na verdade era uma ação intimidatória, provocatória. Em determinado momento tentaram tomar o caixão de nossas mãos. Tremi de medo, pensei correr, muitos pensaram, poucos fizeram e, numa resposta começamos a cantar o Hino Nacional Brasileiro, que os ditadores haviam tomado para si, como o fizeram com os demais símbolos nacionais. As vozes misturavam e os cantos ecoaram ao longo da Avenida Caxangá. O Enterro do padre Henrique nos chamava a defender o Brasil, não permitindo que os ditadores e seus sequazes nos expulsem de nossa pátria, de nossa nação. Cantar o Hino Nacional passou a ser uma prática no enfrentamento com os ditadores. Foi assim na campanha do anticandidato Ulisses Guimarães. Aos poucos, nos anos seguintes fomos retomando o país da mão dos seus destruidores, apontando seus erros, até que eles assumiram que fracassaram e nos entregaram o país de volta, mas o devolveram maculado pelo mal, como podemos perceber atualmente.    

Nos dias atuais assistimos os filhos e netos da ditadura se apossarem da nação, dos símbolos nacionais. Aproveitam da pandemia do Covid 19 para um processo de higienização social, torcendo para morram os velhos e os fracos.  Não podemos permitir isso. Não podemos ouvir, sem reação, esses netos de carcereiros e torturadores, netos físicos e espirituais,  continuem matando-nos. Devemos lembrar e cantar nossas canções de amor à vida, vivê-las, porque “mais que que nunca é preciso cantar” que “prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” e  criando “um dia que vem vindo e que vivo pra cantar na avenida girando, estandarte na mão pra anunciar”.   

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.