Drama 10. Corações e mentes

Drama

Segunda quinzena de maio e o número de mortos nesta epidemia global, no Brasil, supera a marca dos 15 mil e, o país ouviu o estrepitoso silêncio do presidente da República, controlador do Ministério do Trabalho, sobre tal situação. O que se ouviu foi sua gargalhada comemorativa da liberação de um protocolo para o uso de mu medicamento, cuja eficácia é posta em dúvida pela Organização Mundial de Saúde. O uso desse medicamento foi uma das razões para o afastamento de médicos na chefia do Ministério da Saúde. A outra razão foi que tais médicos recusaram seguir a orientação do presidente que, sabe-se lá que razões tem para tal, desejoso de que os infectados pela Covid19 recebessem tratamento com esta droga. Era a vontade de um desconhecedor da área que desejava se impor aos médicos sob o argumento de que, sendo ele presidente, todos os ministros devem estar unidos com ele, não havendo espaço para a discordância. Esta é a visão na qual são treinados os soldados do exército, treinados a cumprir ordens sem questionamentos. Lembrou bem o tenente que, o exército o treinou para matar, ou eliminar todos os que agem como obstáculo à consecução do objetivo definido pelo Estado Maior, cabendo aos subalternos, o simples cumprimento das ordens recebidas, ainda que elas sejam estúpidas e sem sentido. Ora, neste momento temos um general reservista, que jamais estudou medicina ou ciência correlata, dirigindo o Ministério a Saúde. Por ser um ex-general, ele também foi treinado para matar. Pessoas treinadas para matar precisam matar em si mesmo os sentimentos que a morte de uma pessoa possa provocar. Aliás, para poder matar sem questionamento, os soldados quando se dirigem ao campo de batalha não podem ver pessoas, eles só enxergam inimigos que devem ser eliminados. Os mortos são consequência normal da atividade de um soldado em batalha, daí o silêncio sobre os 15 mil brasileiros mortos desde março pela Covid19.

Recentemente assisti o filme 1917, que conta linearmente a saga de dois soldados que receberam a tarefa de entregar uma mensagem a um comandante, e para tal teriam que passar por campos dominados pelos inimigos. O que considero o momento mais tocante no filme é a cena das ruas formadas pelas trincheiras. A Guerra de 1914-19 foi uma guerra parada, com pequenos avanços que objetivavam aumentar os danos ao inimigo com pouco custo de vida de seus soldados e armamentos. Com essa tática, a troca de tiros e pequenos ataques levou a guerra a longo quatro anos. Mas a cena a qual me refiro apresenta, naquelas ruelas é de soldados postos contra os paredões, esperando a ordem para que subissem as escadas e afrontassem o inimigo com os seus corpos, recebessem as balas, simplesmente morressem sob o comando de um coronel ou general que estava mais protegido, distante da linha de fogo. O que me impressionou era a face de aceitação dos soldados que olhavam, indiferentes, o que ocorria ao logo das trincheiras, o movimento que havia. A eles importava apenas ouvir a ordem de “avançar” e levantavam-se e corriam em direção à morte. A sua morte, mais que a do inimigo é que estava certa e garantia sua vitória: uma morte silenciosa, solitária, distante de tudo. É que o mundo e tudo o que ele representa já havia terminado.

Uma reunião do comando militar para debater a estratégia da ação, verificar a logística que melhor interesse ao comando superior, é o que interessa. Um dos atos iniciais após a declaração russa de guerra à Alemanha, foi o gesto de arrancar os fios de telefone para evitar que houvesse alguma comunicação que desse oportunidade a suspensão da guerra. Os fios foram quebrados, assim como os navios de Cortez. Os que desejam a guerra explicitam que não pode haver retorno, arrependimento, pois só a verdade da morte libertará. Ao transformar o Ministério da Saúde em uma casamata, abrigo protetor do comando, o atual governo brasileiro assumiu que está em uma nova fase de sua guerra, após o controle sobre a Amazônia, sonho cultivado desde a recusa do plano terrorista do tenente que, só não foi expulso do exército pela ação de seus colegas em um julgamento fraudado. A fase anterior, foi a conquista de espaços das mentes. Estão seguindo a pensamento do general Westmoreland na guerra do Vietnan: Conquistar Corações e Mentes. Westmoreland perdeu. Deixaremos que ele nos vença?   

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.