Aniversário de Dom Hélder

Hoje é aniversário de Dom Hélder Câmara, o Dom que a Arquidiocese de Olinda e Recife recebeu, no mês de abril de 1964. Era o momento inicial de uma longa jornada para os brasileiros, um período de obscurantismo que nos presenteado por alguns empresários, políticos, religiosos de todas as fés. Um tempo de destruição, como o que assistimos hoje, mas o Dom nos fez ver a esperança na escuridão que os ditadores e seus aliados nos impuseram e, parte do povo, que tirava vantagem da situação apoiava, como hoje. O tempo de Dom Hélder entre nós, foi o tempo em que se descobriu a Declaração de Universal dos Direitos Humanos, assinada pelo Brasil em 1948, mas que não foi repassada para os brasileiros. Foi necessário o tempo de provação para que entendêssemos o significado do direito à vida, à liberdade, à expressão, à moradia, à educação, à segurança, ao pensamento, às condições básicas da vida e muito mais, mas principalmente que nenhum desses direitos nos alcançam isoladamente. Tudo em comum. Os direitos humanos começaram a ser respeitados no Brasil quando os brasileiros assumiram que deviam lutar por eles, construí-los, mas com todos os povos. dlom Hélder nos apontou o caminho da solidariedade universal, além dos partidos, das nações, dos credos. E hoje é seu aniversário, e por isso vamos pensar em algumas de sua intuições e lições.   

1970, em viagem, Dom Hélder foi à Europa, aos EUA e Canadá para uma série de palestras. Fez percurso semelhante alguns anos depois. Em 1972 eu o vi em Vancouver.  lembro-me de uma conversa que tive com um amigo que me ensinou muitas coisas. O conheci padre Michel Jorissem, em Nova Descoberta, quando ele fazia parte de uma ação conjunta das arquidioceses de Olinda e Recife e Detroit, no qual alguns padres vieram para assumir algumas paróquias, um convênio que começara a ser tratado por Dom Carlos Coelho. Ao retornar ao EUA, Michel Jorissen laicizou-se. Encontrei-o uma vez, foi a última, em Nova York em 1975. Conversamos sobre dom Hélder e suas palestras. Em um dado momento ele disse algo mais ou menos assim: “ler Dom Hélder cansa, ele se repete muito”.  É  verdade, dom Hélder se repete muito, a miséria que ele queria superar não mudava, mas os seus discursos podem ser lidos hoje com sabor de novidade, só precisa atualizar alguns dados econômicos e sócio-populacionais. Infelizmente ainda não vencemos o egoísmo que provoca tanta dor no mundo.

Nos anos setenta, foi publicado um livro do Dom, Espiral da Violência, sucesso internacional de venda. Livro difícil de ser encontrado hoje. Uma preciosidade de cerca de sessenta páginas, que eu tinha e perdi.  Quem sabe a Editora Loyola um dia o republique..Naquele livro Dom Hélder ensina que há uma espiral que faz a violência crescer, espalhar-se por causa da sofreguidão pelo lucro, pelo acúmulo, e por negar a uma imensa parte da humanidade os bens que são gerados pelo trabalho de milhões que jamais têm acesso aos bens que produzem. Dom Hélder menciona uma expressão que  repete muitas vezes: a Bomba M, a mais explosiva das bombas, a Bomba da Miséria que se alastra e esmaga a muitos. Como os dados recentes colocam que a riqueza produzida hoje no mundo está sob controle de uma centena de famílias, é claro que as reflexões de Dom Hélder nos setenta podem ser aplicadas hoje.

Para sair dessa situação, Dom Hélder, mantinha a esperança de que os homens formassem uma grande família, que é o projeto de Deus. Devemos sempre lembrar que dom Hélder não é sociólogo ou economista, nem mesmo teólogo no sentido acadêmico do termo, é um teólogo, um profeta, no sentido de que ele  nos explica o projeto que Deus tem para os homens, e apresenta os motivos pelos quais ainda não conseguimos formar essa família que superaria, ou superará, os problemas causados pelo egoísmo que faz a concentração da riqueza, como a explica. Dom Hélder é um religioso e observa o mundo a partir de sua fé e esperança que o leva à prática da Caridade, não como a distribuição de  esmola, mas ações que aperfeiçoam a humanidade. O que faz a força da palavra de Dom Hélder é a sua fé e a sua esperança em Deus que se revela nas ações dos homens. É essa esperança que faz Dom Hélder imaginar as Minorias Abraâmicas, grupos que devem se formar nos mais diferentes espaços da terra, grupos formados por pessoas de vários grupos sociais, etnias, religiões, nações, etc. , grupos formados por homens e mulheres cultivadores da esperança e de um mundo novo. Esses pequenos núcleos fariam ações práticas – engenheiros e arquitetos pensariam novas maneiras de habitações, grupos empresariais forneceriam condições para a realizações desses projetos, os políticos (prefeitos, governadores, ministros etc.) criaram as condições necessárias e a sociedade – famílias, grupos, pessoas, igrejas, clubes – forneceriam o trabalho necessário, etc.. Essas minorias eu as vejo atuando hoje com diferentes nomes como Greenpeace, fundada em Vancouver, Canadá, 1971; Médicos Sem Fronteiras, criada em Paris, França, no ano de 1971, e tantas que nem sabem como e onde nasceram, qual o vento lhes soprou para que se organizassem. Foram fundadas por jovens apaixonados, jovens que encheram os estádios e ginásios para ouvir o Dom da Paz, o Peregrino da Esperança, a voz dos que não têm voz, e colocaram em prática e sonharam e fazem a construção de um mundo melhor. Nunca saberemos os resultados das viagens de Dom Hélder.

A comunidade mundial essa família, essas minorias abraâmicas, esses grupos que esperam contra toda a esperança, esses que acreditam que quanto mais escura a noite mais bela e brilhante é a madrugada, já existe, e é fortalecida por novos grupos que são criadas a cada dia. Parece que concorrem entre si, mas esses grupos estão criando um mundo novo. Essas comunidades estão à serviço dos mais pobres, e quem está a serviço dos pobres está a serviço de toda a humanidade. Podemos dizer em uma linguagem iluminista. Dom Hélder as imaginou como sinais da construção do Reino de Deus, pois, como ele ensinou, a eternidade começa aqui e agora.

Mas, assistimos esses grupos serem atacados pelas famílias que concentram a riqueza, por governos e políticos interessados apenas no poder e favorecer os que lhes financiam, são políticos e grupos pouco interessados, verdadeiramente interessados no bem comum, na grande família humana. Por estarmos governados por esses grupos concentradores da riqueza mundial, é que mais da metade da população mundial ainda não tem acesso a água limpa e potável, não tem acesso a saneamento básico, o que provoca doenças e pestes como a que experimentamos nesta segunda década do século XXI. Mas continuamos esperando contra toda esperança, pois as Minorias Abraâmicas, carregam pedras enquanto descansam, jamais deixam de esperar/fazer um mundo melhor, pois acreditam e vivem na crença de o mundo será melhor quando o menor acreditar no menor.

PS. São inúmeras as obras sobre Dom Hélder Câmara, entre elas Entre o Tibre e o Capibaribe, de munha autoria e publicado pela Editor Universitária da UFPE, já em 2ª edição.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.