Escravidão e a dificuldade de assumir o isolamento social.

Aquele que lutou a grande batalha contra o trabalho escravo no Brasil, Joaquim Nabuco, escreveu que a escravidão cria uma sociedade em que uma parte não trabalha, apenas manda, e outra parte que apenas obedece, mas que obedece sob chibata. Uma sociedade gestada com base na escravidão de seres humanos, um processo de desumanização, dificilmente será uma sociedade livre, capaz de gerir-se e respeitar-se. Os que se alimentam do trabalho dos outros, não valorizam o trabalho, nem aqueles que trabalham;  aqueles que trabalham e não conseguem usufruir daquilo que o seu trabalho produz, percebem-se como nada, como ninguém, e são levados a confundir migalhas de alimentos e liberdade com a plenitude dos bens a que têm direito. E, o que é terrível, os povos que foram gestados na escravidão confundem falsa dádivas como direito.

É por não perceber o outro como sujeito que os senhores de escravos, os originais ou seus descendentes, não conseguem valorizar a vida dos demais membros da sociedade, ou melhor, entendem que eles, apenas eles, é que fazem a sociedade. Daí o descaso da vida dos outros, daí o “ e daí?”.

Não valorizar a vida, é o mesmo que não valorizar a vida dos outros. Na medida que  se desconhece o valor do outro, da sua dor, dos seus sentimentos, cri-se o espaço para não perceber a sua existência e, se eles não existem, não há porque preocupar-se com eles, com o que lhes aconteça e, este comportamento está  condenado, dito como errado desde o início da tradição na qual o Brasil foi formado.

E o Senhor disse a Caim: ”onde está o teu irmão?” – Caim respondeu: “: Não sei. Sou porventura eu o guarda do meu irmão?” Gen4:9.  

Fora do Paraíso, todos são responsáveis por todos, mesmos os que receberam a glória do poder, uma vez que o poder só é grandioso e reconhecido à medida que for capaz de atender a necessidade de todos e não a vaidade dos que que o receberam. O não preocupar-se com o que ocorre aos demais, será cobrado. Cada gota de sangue será cobrado “e de ora em diante, serás maldito e expulsos da terra, eu abriu a boca para beber da tua mão o sangue de teu irmão” Gen 4:11s.

Ao destruir a vida do irmão para saciar a sua vaidade ferida, a pessoa  deseja negar a humanidade dele e afirmar a sua, mas como a humanidade é sempre coletiva, é impossível ser humano sozinho. Negar a vida do irmão é negar a sua própria humanidade. Reconhecer o erro, admitir que é responsável pelos acontecimentos que estão no entorno de sua existência, é a tentativa de recuperar a humanidade perdida.

Após a repercussão negativa do seu “e daí”, ou seja “o que tenho eu com a vida de meu irmão ?”, por sinceridade ou cálculo político, assistimos, agora, o presidente Bolsonaro dizer, timidamente, que talvez tenha sido portador do vírus que ele negava; mas, ao dizer que os governadores com sua política não conseguiram achatar a curva epidêmica, querendo-lhes imputar a culpa das mortes que ele perpetrou, Bolsonaro começa a admitir que cometeu erro. Certo que isso ocorre depois que o presidente Trump indicou que o “Brasil tomou o rumo diferente” e ameaçar suspender os voos doas companhias aéreas norte americanas para o Brasil, como que cumprindo o castigo de ser um pária na sociedade humana.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.