Drama

Não tem sido fácil a construção da humanidade, ela busca alcançar o que é, parece, inalcançável. Recordo de um debate com um dos meus professores de Bíblia a respeito do que ocorria no Paraíso. A ‘queda’ de Adão e Eva é sempre um enigma. Um dos castigos recebidos por conta da desobediência é a morte, o outro é trabalho e o terceiro é a dor. Os escritores da Bíblia entendiam que os homens e mulheres não morriam antes da desobediência, assim como a necessidade de trabalhar para manter-se alimentado e vivo. Também a chegada da vida não significava a dor nem o risco da morte. Todo o drama ocorreu a partir do momento em que o desejo de conhecer o desconhecido foi maior que o temor do desconhecido. Mas isso tudo ocorreu antes que a história começasse, pois a história começa com o conhecimento de que a vida é o risco de seu desaparecimento em meio do trabalho e dor. A história parece ser a busca para chegar ao Paraíso, e ele pode ser alcançado indo em frente ou sonhando com o que se perdeu. O Paraíso é promessa ou saudade. É promessa da imortalidade ou saudade da imortalidade; promessa de um tempo sem dor ou saudade de um tempo indolor; promessa de fartura sem esforço ou saudade da fartura sem esforço. A história, ou seja a sequencia da vida humana tem sido essa busca de construir ou voltar ao tempo farto sem dor, sem morte.

Meu professor, posteriormente bispo anglicano, respondeu-me dizendo que eu deveria pensar mais sobre o assunto e que ele era/é muito interessante. Ao longo de minha vida encontrei e encontro vários códigos morais que indicam como devem agir os homens: devem ser bons, magnânimos, piedosos, calmos, atenciosos, honestos, francos, respeitadores,  contentes com o que possuem, não serem invejosos, serem como os  lírios dos campos e aves do céu. Esses códigos estão em todos os recantos da terra e são repetidos catequeticamente em todas as religiões e filosofias. Em Confúcio, Buda, Incas, Brâmanes, Abraão, Código Napoleônico.  São ensinados por aqueles que não as seguem, estão acima delas pois delas são guardiões, e por isso eles possuem o que não deve ser cobiçado. E castigam os que não conseguem vencer o desejo. Como eles conseguiram isso? Como eles conseguem isso, ainda hoje? Eles conseguiram o ócio com dignidade e sorriem dizendo duas verdades que parecem excludentes mas são explicativas e complementares: se não trabalhar não come, mas quem trabalha não tem tempo para pensar. Tempo para pensar.

Nossa sociedade tecnológica encontrou meios para que todos tenhamos tempo para pensar. Bem, não é a todos que é dado esse tempo, pois a maioria continua, como nos terraços da Mesopotâmia, vivendo da mão para a boca, trabalhando com o objetivo de ter um prato de sopa de cebola no final do dia. O caldo de carne jamais lhe chegará. Bem, há dias de festas e, neles, algo cairá da mesa. Os quadrupedes e rastejantes que chegarem primeiro alcançarão o osso e terão uma sopa diferente naquela noite.    

“sou um atleta”, “morrem os mais velhos”. As pirâmides precisam ser construídas; Salomão construiu o Templo; o Tja Mahal é mais bela prova de amor;  a Torre Eifel, a Capela Sistina o altar do Mosteiro de São Bento; o Louvre; o Arco do Triunfo. Tudo é arte beleza e sangue.

E Virgílio não entrou no Paraíso.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.