História para meus filhos e netos: a urina de meu pai e a Covid19.

Severino Vicente da silva

Acordo na madrugada pensando na história que contei a Isaac, um pouco da história de meus pais, de Nova Descoberta e minha primeira palestra no ano de 1959, no dia da inauguração da Igreja matriz de Nossa Senhora de Lourdes. Foi uma história narcísica, pois contei de minha participação, como orador da Cruzada Eucarística , naquela festa da comunidade católica, com a presença do arcebispo Dom Antônio de Almeida Moraes Junior. Essa história veio acompanhada com a lembrança de minha mãe que, sem empregada doméstica cozinhava, lavava para toda a família, e administrava os filhos (Zefinha passava a roupa, Lia varria a casa, Doutor cuidava da venda de água na cacimba, etc.) e todos ía-mos  à missa, faziam os deveres de casa. Mamãe era presidente do Apostolado da Oração. Papai comerciava, o dia inteiro no balcão da venda, juntamente com um primo de mamãe, Manoel Lopes. Depois Manoel Lopes montou seu próprio comércio, na mesma rua, e mamãe assumia muitas vez a função de balconista, atividade que Doutor, Lia e eu assumimos várias vezes. A família girava em torno da venda que garantia a vida de todos: alimentação, escola, vestuário.

Ao acordar nesta madrugada pensei no que estava ocorrendo ao meu redor. Ontem passei por uma cirurgia para a retirada de uma pedra no rim, mas a tecnologia e a economia não permitiram, apesar de vasto conhecimento já alcançado pela medicina nessa área, mas ela está atrelada ao sistema econômico que a financia, e às políticas sociais que permitem que o conhecimento prático chegue ou não à população. E isso parece estar relacionado com alguns motivos que fizeram meu pai migrar da pequena propriedade Eixo Grande, à beira do rio Capibaribe na primeira parte da década de 1950.

Nas confusas lembranças que guardo daquele tempo, estão as tardes na calçada da casa, comendo pimentão ou chupando laranja do sítio. Passou-se um tempo em que papai viajara para o Recife e ficara mais que uma semana ou um mês. Se o tempo afeta a lembrança dos mais velhos, bem que alcança e pode ser entendimento diferente por uma criança, inclusive porque a lembrança primeira vai sendo modificada pelas conversas e lembranças de terceiros. Sei dizer que foi muito tempo e, nesse tempo mamãe cuidava da venda. Papai veio ao Recife para verificar o que ocorria, pois começava urinar sangue, no tempo em que a seca atingia o agreste de Pernambuco e na parte que se encontra com  a Mata Norte, como aprendi depois nos livros e aulas de história. Ouvi aquelas conversas, talvez, quando sentado na calçada, e escutava os homens falarem entre si, em voz baixa, que isso não era conversa de menino. Esse “urinar sangue” me acompanhou sempre e era como um problema tão grande que o Hospital Pedro II, onde papai ficou internado, não conseguira resolver. Depois soube que a doença foi superada, a urina voltou à sua cor normal. Em decorrência dessas viagens para tratamento da saúde, veio a ideia de mudar para o Recife. E parte do que possuía foi vendido  para a compra de terreno em Nova Descoberta, onde construiu casa de pau-a-pique e barro. A mesma casa onde morreu, nos meus braças, enquanto mamãe colocava uma vela em sua mão e Cristiano, seu neto, chamava pelo avô.

Nesta semana, eu urinei sangue, fui ao hospital que fica a três quilômetros de minha casa, fique internado por 24 horas, fui operado e voltei para casa sob medicamentos. Penso em como mudou o Brasil nesses sessenta anos em sua medicina e no trato com sua gente; mas mudanças não foram estruturais. É isso que nos alerta essa pandemia covid19, e não apenas no Brasil. Olhando para a América Latina vemos países que tomaram medidas rápidas , pois entenderam que a situação é trágica e que eles não conseguiriam estancar a perda de vidas humanas, embora que para isso percam alguma riqueza econômica. Outros países, como o Brasil, preferiu adotar o ‘jeito’ americano/Trump de ser, agindo de maneira negacionista e pondo em risco a nação. O mandatário americano rapidamente refluiu de sua loucura, o que não fez o governo brasileiro por incúria e falta de inteligência. E foi esta falta de inteligência que acometeu o país em sua período republicano: seguir políticas norte-americanas em todos os campos, sem considerar que, apesar da influência deles nas palavras da primeira constituição, a alma mais profunda do Brasil está nas culturas silvícolas, africanas e europeias, notadamente Portugal e França. De Portugal, dentre muitas coisas, herdamos esse apego à propriedade privada, mas apenas para os que a podem comprar e jamais, quando era possível, abrir possibilidade para os silvícolas e seus descendentes, os africanos e seus descendentes, excluindo do usufruto da cidadania mais de dois terços da população. O Brasil sempre é pensado como um país de 30%, mas é pensado como se esses 30% tivessem conseguido a cidadania como ela foi gestada nos Estados Unidos da América, como eles costumam dizer o ‘selfmade man’. Entretanto o sentimento de liberdade e busca de igualdade nas relações, nos Estados Unidos esteve baseado em um campo político ideológico de relações individuais responsáveis (com prêmio e castigo), mas com possibilidade de abertura para os membros de iniciativa. O Brasil, por outro lado, formou-se, desde a invasão europeia do século XVI, sob o manto da autoridade abusiva e das liberdades controladas por instâncias de poder externo, o que impediu a formação de uma sociedade livre porque impermeável à mudanças estruturais. Sempre, no Brasil, as mudanças foram realizadas para que as mudanças não fossem realizadas. Pois se as mudanças estruturais houvessem sido realizadas não haveria essa sociedade de 70% de excluídos, ou mais. Por isso meu pai morreu sem compreender porque não recebeu o atendimento médico; por similar razão decidiu, intuitivamente, que não poderia mais continuar a morar na periferia geográfica e cultural dominante. Veio para a periferia da cidade grande, onde também se mantinham as estruturas que o prendiam na parte mais inferior da sociedade desde o nascimento; meu pai não desejava para seus filhos, o cabo da enxada e o túnel social fechado que lhe tocara como neto de escravo e filho de índia mestiça. Mas as estruturas mentais que estão na alma do povo brasileiro, impostas por cerca de 30% dos que governam o Brasil desde 1549, e  continuam firmes nas ações dos descendentes dos desencontros dos fundadores da nação, de sorte que atende apenas o pequeno terço. Aos demais o Rosário.

E o Covid19 tem demonstrado isso muito bem. Neste momento há uma grande preocupação, um temor de que ele se espalhe e alcance o terço dominante, por isso é que se discute o vírus, mas não a estrutura, ou ausência de estrutura para os dois terços da população. O vírus tem atingido setores mais ricos e a classe média da sociedade industrial, de modo a fazer tremer o presidente dos Estados Unidos, a princípio agindo com comportamento blasé e arrogante, mas que se transformou quando Nova York, San Francisco pararam. Aqui também, o presidente Bolsonaro tem mudado, mais lentamente, o seu comportamento, pois o vírus pode alcançar as suas bases milicianas. E, agora vemos, depois de três semanas, que o noticiário começa a entender que não tem água nem sabão em quantidade nas periferias – favelas – das cidades, onde o ‘isolamento social’ é quase impossível com as casas em ajuntamento, sem serviço de esgoto e água, lugares onde os Estado não alcança, pois dominado pelas milícias. E não espanta a ninguém essa situação. Também não espanta que tem sido escondido o desastre populacional causado pela Dengue e, da microcefalia da qual já não se ouve. Da última vez que o governo central abordou o tema foi quase informando que não tem responsabilidade sobre casos novos. Digo Governo Central pois não parece ser federal, como demonstra a ação dos governadores do Nordeste ao descaso do governo federal em relação à Covid19, pois em relação à dengue e a criação de infraestrutura necessária para vencê-la, apenas demonstra que fazem parte das mesmas famílias que sugam o Brasil que é produtivo e trabalhador, como os pequenos proprietários e os ambulantes sem carteira de trabalho, tão desprezados como os mascates e tropeiros que formaram o Brasil.

Todas essas reflexões faço para não perder a consciência de que sou o índio desprezado, o negro evitado e o branco pobre enxerido que quer participar da história do Brasil, e por isso conta essas histórias para seus filhos e netos e a quem estiver disponível. Ela é parecida com 75% da população brasileira.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.