PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS

PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS

Artigo/relatório a partir de pesquisação com os presidentes dos maracatus Leão Cultural, Águia Dourada, Leão Misterioso e Coração Nazareno, em 2009, atividade do Projeto PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS, a realizado em Nazaré da Mata, pelo prof. Severino Vicente da Silva.[1]

Durante dois meses do ano de 2009, julho e agosto, cumprindo  o que estava previsto, foram realizadas visitas aos Maracatus de Baque Solto Leão Misterioso, Coração Nazareno, Águia Misteriosa e Leão Cultural, como parte da realização do Projeto ENGENHO DE MARACATUS, aprovado pelo Programa Cultura Viva.

O objetivo da Pesquisa foi recolher informações sobre os maracatus procurando verificar como eles poderiam trabalhar conjuntamente e organizar informações sobre os instrumentos, vestuário, adereços e movimentos dos componentes da brincadeira do maracatu de baque solto, também conhecido como Maracatu de baque Virado, visando a realização de oficinas de produção e de apresentação em escolas da rede municipal do município de Nazaré da Mata.

MARACATU LEÃO CULTURAL

A primeira visita foi realizada foi ao Maracatu Leão Cultural, em sua sede. Entrevistamos o sr. Manoel Antônio da Silva, dono do maracatu. A visita/entrevista ocorreu enquanto ‘seu’ Antônio, como prefere ser chamado, estava construindo/confeccionando chapéus para o próximo carnaval. Falou da dificuldade que enfrentava a cada ano para “colocar o maracatu” na rua, pois a cada ano o material ficava mais caro e era pouca a ajuda que recebia de amigos e o que a prefeitura paga por apresentação não é o suficiente para pagar os caboclos. Aqui então ele lembra dos “tempos de antigamente”, quando os caboclos se ofereciam para sair, e quase todos já vinham com suas roupas prontas. Agora, diz ele. “os meninos não querem brincar sem receber algum trocado, e eles não querem pouco.” Também lamenta que já não tanta gente que está interessada em brincar maracatu. Quanto ao Projeto Engenho de Maracatus, ele tem a esperança que seja de boa ajuda e que promova o interesse dos jovens em participar como caboclos e, principalmente ele sente que tem mais dificuldade de encontrar moças que queiram ser baianas e formar a corte. Reclama que as exigências que são feitas para o desfile são muitas e, maracatus pobres como o dele, dificilmente tem possibilidade de atender todas as exigências. Mas acredita que, com a formação do PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS e a ajuda dos outros maracatus que estão fazendo parte do Ponto de Cultura, será mais fácil, para ele, encontrar alguns meios para melhorar a situação do Maracatu Leão Cultural.

MARACATU ÁGUIA DOURADA

Muito interessante foi a visita ao Maracatu Águia Misteriosa em sua sede social, e fomos recebido pelo senhor Belarmino Jerônimo e toda a diretoria do Águia Dourada. Nos chamou atenção a localização da sede, bem próxima do canavial que avança sobre as casas e que, durante o período do corte, deve provocar imenso calor. A convivência com o canavial ocorre desde o início de suas vidas, pois muitos dos que usam a roupa de caboclo e carregam as lanças de guerreiro, são os mesmos que utilizam as foices na derrubada das canas depois levadas para as usinas. Na pequena sala havia pessoas de diversas idades e, embora todos estivessem voltados para conversar e falar sobre as questões do cotidiano do Maracatu Água de Ouro, via-se que pela manhã muitas pessoas haviam, pela manhã trabalhado no local. Uma das oficinas que estavam interessadas em realizar era para a formação/treinamento para Mestre de Apito, mais conhecido como Mestre de Maracatu. Foi dito que era necessário formar gente mais nova para a tirada das loas, a criação de versos que fazem a alegria dos trabalhadores quando o maracatu sai pra se mostrar. Não é como disseram, que se vá ensinar a ser poeta, mas que seja uma possibilidade de aperfeiçoar os meninos que treinam sozinhos para serem mestres. Essa é um dos objetivos que o Maracatu Águia de Ouro espera na participação do PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS.

MARACATU LEÃO MISTERIOSO

O Maracatu Leão Misterioso pertence a João Manoel dos Santos, personalidade entre os maracatuzeiros de Nazaré da Mata e de toda a região da Mara Norte de Pernambuco, onde ele mais conhecido como Mestre João Paulo, e recebe uma titulação, dada pela população, de O Papa do Maracatu, relacionando-o ao papa João Paulo II, pontífice católico então reinante. Como os demais maracatus rurais, a sede do Leão Misterioso está localizada na periferia da área urbana da cidade. Este maracatu é um caso interessante, no qual o Mestre de Maracatu, aquele que entoa as canções as loas, e orienta os movimentos dos integrantes do maracatu é, ao mesmo tempo o seu proprietário e principal responsável pela sua organização financeira, econômica, estrutural, enfim. Observamos que o Maracatu Leão Misterioso mantem relação na comunidade, uma relação que ultrapassa os limites da brincadeira, pois mantem uma aula de informática para os jovens da comunidade, além de promover atividades como curso de dança e formação para um maracatu mirim. A participação do Maracatu Leão Misterioso no PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS será a partilha de sua experiência e a recepção de novas práticas da arte utilizadas pelos demais participantes. João Paulo louva que o Projeto Engenho de Maracatu é mais um passa para diminuir a rivalidade entre os maracatus, rivalidade que, no passado trouxe muitos problemas para os próprios maracatu.

MARACATU CORAÇÃO NAZARENO

O quarto participante do PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS é o Maracatu Coração Nazareno, presidido por Givalda Maria da Silva. Pioneiro em sua modalidade, o Maracatu Coração Nazareno é o primeiro Maracatu formado totalmente por mulheres, sendo uma das ações promovidas pela Associação da Mulheres de Nazaré da Mata – AMUNAM. Para Givalda Maria da Silva, o Maracatu Coração Nazaré é um instrumento de afirmação das mulheres em uma sociedade onde prevalecem os valores machistas, que favorecem o homem, embora as mulheres seja importante força de trabalho na produção da principal riqueza da região, além do trabalho doméstico, sempre pouco valorizado. Assumindo o papel de  caboclas guerreiras nos desfiles, o Maracatu Coração Nazareno é um estímulo para a participação das mulheres em outras atividades da vida pública. E também da arte, como pode ser notado pela dedicação das mulheres – adolescentes, jovens e adultas, em aprenderem o toque dos instrumentos, formando o terno próprio. É esse entusiasmo que as caboclas do Coração Nazareno pretendem levar ao PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DE MARACATUS, diz a presidente do Coração Nazareno, além de uma imensa vontade de aprofundar os seus conhecimentos na arte da confecção dos artefatos e vestuários utilizados nas apresentações.  


[1] Professor do Departamento de História da UFPE; Vice Coordenador do Laboratório de História Oral e Imagem – LAHOI, UFPE;   Membro do Instituto Histórico de Olinda – IHO; Comissão de Estudos de História da Igreja da América Latina – CEHILA.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.