Escondidos na biblioteca 2

Escondidos na biblioteca 2

Pois então as fotos que foram redescobertas pela queda dos livros, levaram-me a Belém do São Francisco; elas são registros de minhas atividades Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco, parte da Autarquia Belemita de Cultura, Desporto e Educação, quando auxiliei a reorganização do curso de História, como já havia feito em Arcoverde. Tive o prazer de conhecer uma cidade que sempre primou pela formação de seus cidadãos, embora carregando toda a bagagem do coronelismo, já bem moderno, pois Belém do São Francisco é a primeira cidade pernambucana projetada, tomando como modelo Belo Horizonte. Vivenciei as festividades do Centenário da Cidade, inclusive criando camisa comemorativa, aproveitando o fato de ter sido o paraninfo de uma turma que se formava no ano de 2003. Conheci de perto a devoção a são Gonçalo do Amarante, inclusive levando um aluno do curso de História da UFPE para estudar a tradição, mesmo sem ter ele recebido bolsa para tal tarefa. Essa devoção levou-me à casa de Seu Jerônimo, em Itacuruba, devoto e organizador da festa desse santo dos pobres e protetor das prostitutas, uma festa de fartura para honra do santo que só aceita esse tipo de pagamento. Festa de São Gonçalo, expulso do litoral no século XIX, mas que está presente nos sertões de Pernambuco, Alagoas e Bahia, é sempre uma festa onde se canta, dança e come. Também conheci os primeiros bonecos gigantes do carnaval pernambucano que chegou “das europas” navegando o Rio São Francisco, uma idealização do padre Norberto, faz agora Cem anos. Os bonecos chegaram no Recife em 1966 e aclimataram-se em Olinda.

Convidado para ajudar o curso de História que apresentava um baixo índice de matrícula, levei para o CESVASF quase todos os professores do Departamento de História para realização de palestras e cursos no finais de semana. Também tive a satisfação de iniciar vários recém formados e recém mestres a realizarem concurso público e tornaram-se professores permanentes naquela Autarquia Municipal. Alguns ainda estão radicados em Belém do São Francisco, outros terminaram por assumir em outras instituições universitárias que já existiam no Sertão, além da chegada da das universidades federal e estadual. Isso foi possível pela coragem dos professores Maria Auxiliadora Lustosa e Licínio Roriz que, foram os responsáveis pelo ressurgimento, também do curso de Geografia. Outro aspecto que considero positivo de minha passagem e de outros professores da UFPE que dedicaram alguns finais de semana aos jovens do Sertão, é que muitos estudantes e professores sentiram-se motivados a enfrentar a pós-graduação stricto sensu, melhorando o capital humano da região.

Ser professor no CESVASF, nos finais de semana durante cinco anos, foi gratificante, aguçou-me a sensibilidade para entender melhor os seres humanos, embora tenha deixado algumas marcas negativas decorrentes de meu temperamento que se recusa, às vezes, deixar de ser um jovem de vinte anos, ou seja, um anacronismo. Mas creio que a liberdade que foi-me dada para agir, permitiu-me exercer o magistério superior, ampliar meus conhecimentos enquanto apontava caminhos de pesquisas a professores que passaram a juventude vendo a graduação e a pós graduação apenas possíveis aos mais próximos do litoral. Acompanhei jovens Pipipan (quando a tribo estava renascendo), Tuxá, Pankararu; mulheres que passaram parte de sua juventude lavando roupa na margem do São Francisco, em suas pesquisas e escrita de seus Trabalhos de Conclusão de Curso e de monografias para sua especialização. Foi maravilhoso assistir a formação de professores de história, geografia, matemática e biologia nos difíceis tempos do início do século XXI, quando a região estava estigmatizada como ‘polígono da maconha’ e muitos evitavam a região. Mas esses jovens professores estão espalhados nas cidades dos sertões baianos e pernambucano, cuidando de formar novos cidadãos. A recuperação do CESVASF levou à criação do primeiro curso de Direito no Sertão e  

Aliás, recebi em minha vida poucas demonstrações em forma de títulos, orgulho-me de ser Cidadão Belemita.  

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.