escondidos na biblioteca

U m barulho levou-me ao que chamo de biblioteca, aqui em casa, um quarto onde alguns livros estão postos em estantes, arrumados na melhor forma possível para deles me servir. Eles ficam lá, esperando que os abra, vez em quando, em busca de informações, de reflexões que outros desenvolveram com o objetivo de aperfeiçoarem-se e, ajudar quem viesse a se interessar, como é o meu caso. O barulho, descobri, depois, foi causado pela queda de uma prateleira que não resistiu ao peso de um volume da Divina Comédia e outros livros escritos sobre a história do Brasil, mais especificamente, de Pernambuco. Juntando os livros, descubro que meus gatos haviam tentado dormir sobre um baú de fotografias e as espalhado. Dedico-me às fotos, o olho que me resta quer divertir-se com as imagens e cores. Começo a organizar, melhor, limpá-las e descubro-me no encontro dos dois séculos de minha vida.

Os últimos anos do século XX levaram-me ao Sertão, mais especificamente à Belém do São Francisco, pois algumas pessoas que não me conheciam solicitaram-me a auxiliar na reorganização do curso de História do CEVASF. Meus finais de semana ficaram comprometidos, pois da sexta-feira, após o expediente da UFPE até o domingo passaram a ser ocupados com jovens do sertão do São Francisco, das duas margens, que frequentavam aquele centro universitário criado havia cerca de vinte anos. Depois soube que um dos colegas do Departamento de História havia participado da criação de um entidade que oferece curso superior no Sertão. Eu já havia estado na margem do São Francisco no final dos anos sessenta e início dos setenta, cuidando de animar a juventude católica, a chamada Pastoral da Juventude. Naqueles anos foi Petrolina, a diocese dirigida por Dom Antônio Campelo de Aragão que recebera meus serviços. Depois, já no início dos noventa, estive em Petrolina em curso de Especialização, promovida pela Fundação de Ensino de Pernambuco, que então se organizava para ser a Universidade de Pernambuco. Fui substituir um colega que deveria ir a São Paulo. Foram duas experiências diferentes, e delas tiro proveito até hoje, pois além de receptivas, as pessoas sempre me apontaram caminhos que eu desconhecia. Fui conhecendo o meu povo, fui me conhecendo, ampliando meus olhares para o interior do meu Estado, o que me diziam ser o Brasil profundo. Aprendi a ver os contrastes diversos. E o que fazia eu?

Uma vez o professor Eduardo Hoornaert disse-me que eu estava fazendo o trabalho de “vulgarização do conhecimento”, mas no sentido, disse-me ele, do que foi a Bibliothèque Bleue , a Biblioteca Azul, uma experiência de leituras populares que tornaram accessíveis o conhecimento aos grupos de menor prestígio e poder econômico, no Antigo Regime, mas também no início do tempo da modernidade industrial. As fotografias espelhadas e que pediam organização, mostraram-me nas cidades baianas e pernambucanas banhadas pelo rio São Francisco, mas não apenas elas, pois estive em Euclides da Cunha e em toda a região de Jeremoabo para conhecer de onde chegavam os alunos a quem eu iria servir. Fiquei tão envolvido por esse trabalho que perdi um ano do Nóis sofre mas Nós goza. E esqueci que devia participar de eventos nas capitais, eventos promovidos pelas instituições de pesquisa em história. O Sertão me engoliu por quase uma década. Depois, as fotos levaram-me para a experiência na Mata Norte do Estado de Pernambuco, pois fui convidado auxiliar o Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Nazaré da Mata, de quem fui servo até 2015. Dois mundos que me tomaram e que me alimentam até hoje.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.