Amar é ver o que não se vê

Muito interessante o mundo no qual vivemos: quase  não falamos com aqueles em que esbarramos nas ruas, mas estamos conversando com pessoas das quais nosso olhar nunca teve  notícia. Interessante, mais ainda, é que podemos gostar muito delas, nos comover com suas palavras, com os seus pensamentos e sentimentos. Podemos dizer que as amamos.

Essas contatações contrariam o que aprendi no final de minha infância, nas aulas de catecismo. Em torno de expressões tiradas do Livro Sagrado, Lúcia dizia que se eu não amo a meu vizinho que vejo, como posso dizer que amo a Deus, a quem não vejo? É evidente que os estudiosos bíblicos já lembraram qual o capítulo e o versículo de São João, em sua primeira carta; e os mais eruditos foram capazes de lembrar da carta de São Tiago, aquela que diz que sem obras não há amor e até mesmo o livro de Tobias, lá no Antigo Testamento ou Bíblia Judaica. Mas estes dois últimos livros nunca foram bem aceitos nas regiões onde o capitalismo obteve mais sucesso.

Essa é a conversa do final do primeiro mês de 2020, quase igual ao primeiro mês de 2019, exceto pelo entusiasmo que as promessas do novo presidente traziam, com o apoio de muitos leitores do Livro Sagrado, que se dizem cristãos mas estão arraigados no mais radical Velho Testamento, onde as promessas são muitas, mas o amor aparece pouco.

Lembro a ternura da imagem com a qual Javé se propõe a ser parecido como uma galinha que coloca todos os pintinhos sob as suas asas para protegê-los; ou ainda como o amante que está sempre disposto a aceitar a noiva que se prostituiu. Claro que os eruditos já estão prontos para verificar em quais livros estão tais imagens. Para os mais iniciantes que que eu, digo que são belas imagens poéticas, coisas de profetas, dos explicadores.

Desde o janeiro de 2019 estamos olhando e vivendo, na prática, a aplicação do “olho por olho”, da exigência do sacrifício dos pecadores para que os escolhidos e capazes sintam que seu deus os protegem, como demonstram a riqueza com a qual são premiados. Nada de ‘olhar os lírios dos campos ou os pássaros do céu’, mas cuidar de guardar as normas da lei, de guerrear constantemente contra Baal e seus seguidores, exterminar o mal, matando a todos sem a palavra perdão, exceto no que se refere a si mesmos. Ah! como os deuses se parecem e como os sacerdotes dos diversos deuses vestem-se tão parecidos.

O mês que termina nesta semana é a demonstração de que pouco importa o sofrimento dos jovens que são pobres; pouco importa o sofrimento dos velhos que são pobres; o que importa é que o templo seja construído, que o palácio real seja o esplendor do poder, que os sacerdotes estejam a serviço de Baal, embora pareçam clamar contra ele. Esses sacerdotes nunca compreendem o que o poeta/profeta Daniel quer ou quis dizer com o sonho do rei se alimentando da relva, como os animais brutos; jamais entenderam ou entenderão essa fábula da estátua de pés de barro.

Os sacerdotes jamais entenderam ou entenderão os poetas/profetas. Os matam, séculos depois os homenageiam.   

Janeiro está a terminar, mas para onde vai o atual presidente, é uma incógnita, pois ele gira sobre si mesmo; para onde vai o ex-presidente, é outra incógnita, pois ele gira sobre si mesmo; para onde vai o país, também é uma incógnita, pois seus poetas não tomaram distância do poder. Não compreenderam o mundo no qual estavam metidos e, talvez por isso, deixaram de sonhar, sucumbiram ao imediato, esqueceram que o profeta/poeta é sempre aquele que aponta uma explicação, não a realidade. Os profetas/poetas existem para que não morramos, nem sejamos tocados pelas chamas que destroem. Reis alimentam-se de impostos, profetas de amor, de sonhos, de desejos, de futuros. Para eles a vida

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

Em homenagem aos Setenta e cinco anos do fim dos Campo de Concentração dos nazistas

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.