Epifania de Jesus, epifania do povo

Epifania do Senhor. Aprendi sobre a visitação de três Reis Magos, três sábios que, saídos do Oriente, seguiram uma Estrela que os guiou até um estábulo onde encontraram uma família que recentemente tinha visto o nascimento de um menino a quem deram o  nome de Jesus. Anos depois aprendi que esta palavra: Jesus, significa Deus Salva. Os reis, que ninguém sabe de onde eram, se governavam alguma nação, ajoelharam-se diante do menino e lhe deram presentes. Enquanto os reis do Oriente faziam isso, o rei que governava as terras onde nascera o menino, teria mandado matar todas as crianças de até dois anos de idade para evitar que se cumprisse a profecia de que aquela criança seria rei. Muitas mortes para atingir uma determinada pessoa. Um gasto de vida sempre é realizado por aqueles que cultivam a morte e, são incapazes de oferecer presentes; quando muito trocam objetos, prestígio para manterem-se em evidência. Isso aprendi anos depois, de tanto ver as pessoas só oferecerem presentes se forem convidadas a festas. Não fazem como os Reis (sem terra) do Oriente. Chegaram sem serem convidados,e trouxeram presentes. Tudo isso era representado nos Pastoris, na danças das ciganas que vem do Egito e pedem licença para adorar porque “Jesus nasceu para nos salvar”.

A Festa dos Reis Magos, no Nordeste do Brasil marca o fim do período natalino, quando se realiza a queima da Lapinha, aquele espaço criado na Idade Média, para representar o local do nascimento de Jesus. A Lapinha – também dito Presépio – foi criação do espírito didático de Francisco de Assis para transmitir o espírito do nascimento de Jesus. E esta metodologia tornou-se mais, incorporado ao catolicismo popular, passou a ser parte da cultura europeia e chegou ao Brasil com os portugueses. E vieram as festas das pastoras que fizeram parte das festividades da Igreja até os anos sessenta. O racionalismo que criticou o catolicismo moderno europeu, veio com muita sede contras as tradições populares que estavam a escapar do modelo clerical desde a romanização. Aplicado com entusiasmo pelos reformadores de então, os padres que aplicaram o Vaticano II, os presépios e, principalmente, os pastoris foram afastados da praças próximas às igrejas e foram sumindo.  

O pastoril sobreviveu os ventos do Concílio Vaticano I, à pastoral sacramentalizante, mas não conseguiu vencer os primeiros entendimentos do ensinamentos do Vaticano II. Embora tenha sido pouco refletido esse aspecto, o Vaticano II auxiliou a enfraquecer a cultura popular tradicional, e agora são muitos os que  estão a reencontrá-la neste tempos de recuperação, reencontro da identidade local frente ao mundo globalizador. Ainda bem que os movimentos da Cultura Popular, os Pontos de Cultura continuam a ação de, mesmo não sendo parte da cultura dominante, age por ser parte inerente do povo que sempre foi negado. Talvez não seja um grande exemplo, mas vou tentar.

Quando os Carmelitas aportaram em Olinda no final do século XVI, o primeiro da colonização portuguesa, o governador de Pernambuco que era devoto de Nossa Senhora do Carmo, entregou aos padres carmelitanos o orago de São Gonçalo do Amarante, protetor dos pescadores e das mulheres não casadas. O orago ficava localizado fora dos limites da cidade. Hoje poucos habitantes e visitantes de Olinda sabem quem foi esse São Gonçalo, nem mesmo sabem de sua existência, mas era muito popular,e dançavam em seu louvor no interior das igrejas. Desalojado de sua ermida, os devotos cuidavam de sua devoção na Igreja do senhor do Bonfim. No século XX sumiu. Mas ele está por aí. Quando vamos assistir/participar de uma festa de Cavalo Marinho, encontramos o povo cantando os Reis e a Estrela do Oriente, e também os Arcos de São Gonçalo.

 Ó que caminho tão longe

Tão cheio de areia quente

Junto com São Gonçalo

Vamos continuar em frente

E continuam cantando a Estrela do Oriente junto com os Arcos de São Gonçalo.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.