Sebastiões redivivos

Sempre bom encontrar pessoas que consideramos amigas, com as quais podemos conversar sem temor, sabemos que ela vai nos ouvir, não perscrutar possíveis erros em nossa argumentação para, posteriormente, informar outras pessoas que não somos isso e sim aquilo. E se achamos isso bom e celebramos tais ocorrências é porque, parece, não serem bem comuns. Num desses encontros em que conversamos sobre a surpreendente situação vivenciada atualmente: o mundo parece de “pernas pro ar”. Talvez não seja tão difícil de entender como, os cabeças de coco verde, que carregam bastante água e pouca polpa, passaram a dominar os espaços de poder, após anos de cultivo da ideia de liberdade, de igualdade, fraternidade e outros projetos similares. Conhecemos as árvores pelos frutos que elas dão. O resultado desse desencontro entre os ideais cultivados desde os anos setenta do século passado e a realidade medíocre do pensamento único que foi cultivado no início do século XXI fez surgir esses comportamentos conservadores, reacionários presentemente vividos; uma realidade que pode ser comprovada nas escolas, nos ônibus, nas igrejas, nos partidos políticos, nas associações de classe, nos programas de televisão. E a reação negativa diante dos bons filmes é outro aspecto do cultivo da mediocridade para vencer na vida. Chico Buarque e Ruy Guerra, durante a ditadura civil militar terminada em 1985, nos alertavam que “vence na vida quem diz sim”, mas não percebemos que esse fenômeno não ocorre apenas sob domínio dos militares. E então nos perguntamos: O que aconteceu com a educação? Perguntávamos; O que aconteceu com as igrejas? E quase caímos na tradicional desculpa que foi tudo “culpa dos jesuítas” e seu modelo educacional que dominou o tempo de controle político-militar português nessas terras ditas, hoje, brasileiras. Mas os jesuítas foram expulsos pelos portugueses ainda na fase tardia do século XVIII. Faz muito tempo e esse argumento só é repetido para justificar a indisposição dos governantes brasileiros em ampliar o Brasil.

E então podemos imaginar, e pode ser mais que a imaginação, pode ser a realidade, que os sucessores dos vice-reis continuaram o seu comportamento, suas práticas de não enxergar que o Brasil é maior que o grupo que forma a corte. E todos queriam participar da corte, e todos querem participar da corte, não encerrar o tempo da corte. Os últimos dados ofertados pelo IBGE nos diz eu ainda vivemos no tempo quase aristocrático, eurocêntrico que gira sobre si mesmo à custa da exploração de suas colônias. E, claro, a corte atrai aqueles que sempre dizem sim aos abusos dos vice-reis e, é dessa forma que os medíocres assumem o poder, sempre dispostos a seguir as orientações emanadas do ‘conselho’, evitando contrariar o vice-rei em exercício. Tem sido assim, também desde o início do século XXI. Os dados divulgados pelo IBGE nos indicam que as estruturas de uma democracia não estão sendo bem fundadas, pois confundem a pintura do rodapé com o cuidado que se deve ter ao estabelecer o alicerce necessário. E como o alicerce de nossa sociedade foi criado para ser explorado pela corte do Rio de Janeiro ou de Brasília, temos que os atuais vice-reis estão a destruir o rodapé que iludia a população explorada. Vivemos sob um governo que desarticulou a defesa das reservas naturais do país; está desestruturando o sistema educacional; cuida de abolir a proteção aos mais pobres; está armando os grupos que defendem a corte pois dela usufruem benefícios; dá mostra de por um fim ao Sistema Único de Saúde – SUS, mais um vez em benefícios dos áulicos da corte.

Uma das razões para este embrutecimento da sociedade brasileira, diz-me um amigo, é resultado do sistema educacional (no fundo ele queria dizer ‘jesuítas’) que forma médicos, arquitetos, engenheiros, advogados sem uma compreensão do Brasil real. E isso é feito com sistema e dedicação, como nos indica a retirada de discussões filosóficas das escolas desde o tempo da ditadura. A sequência de ministros e secretários estaduais e municipais de educação os diz claramente como isso é feito: ausência de continuidade de uma gestão para outra: todo medíocre quer colocar sua marca pessoal na ‘galeria do poder’ e, para tal, cuida de destruir o que o anterior fez, pois cada gestor age como o “único sábio”, aquele que vai solucionar o Brasil. Todos os intermediários entre o Vice-rei e o povo, além de apresentar o poderoso de plantão como ‘salvador da pátria’ sente-se, também um Sebastião redivivo.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.