Novembro, não é dezembro

Novembro, para mim, sempre foi um mês de passagem, uma expectativa por dezembro que, no tempo de eu menino, era já um tempo de férias escolares. Então já pensava em ir para o interior, casa de minha avó Alexandrina, ou de meus tios. À medida que o tempo foi passando, quando dezembro ainda era tempo de férias, foi aprendendo sobre a festa do Morro da Conceição, o Pastoril no pátio da Igreja do Buriti, o natal, a Missa do Galo, a refeição com a família, e era a época do presente que papai e mamãe nos davam: roupas, sapatos. Novembro era essa espera para se viver o encantos de dezembro. O passar do tempo trouxe, além dos motivos religiosos de mês do Natal, as primeiras emoções nos risos das vizinhas, das colegas nos assustados.

Não sei porque começou esse negócio de árvores de Natal. Deve ter sido por conta dos cartões que eram vendidos nessa época, todos cheios de pinheiros e neves. Foi o período de uma nova inserção do Brasil no mercado mundial que este tipo de natal, materializado em presentes, começou a ser agregado às multidões. Como uma maior parte da sociedade brasileira (bem pequena, mas precisavam de balconistas e datilógrafos em maior número) passou a ser convidada às escolas e aos mercados, empurrados pelas secas e pelas migrações, foi sendo mais universalizado o dito Papai Noel e sua roupa de coca cola. Hoje o Natal tem novos significados, de tal maneira que já nem se considera que era, para uns continua sendo, uma festa de aniversário de nascimento, de natal, o natal – nascimento – de Jesus. Deixa isso para lá. Eu estava conversando sobre o insosso mês de novembro.

Agora o novembro tem o Thanksgivin day, e o “peru de natal”, que recentemente virou Chester, está correndo o risco de perder um mês de vida. E se começa com o Dia de Todos os Santos, agora termina com uma grande feira, apelidada de Black Friday, com participação de todos quantos entendem que “não se pode perder a oportunidade de comprar barato” aquilo que é quase desnecessário para o comprador. Este tem bons motivos para agradecer e celebrar o dia de ações de graças, especialmente para os que vivem de ações na Bolsa de Valores e Futuro.

Mas, o que pode um brasileiro que ama sua nação mais que um televisor comprado na Black Friday, agradecer a este novembro que termina com o novo presidente da Fundação Cultural Palmares afirmando que a “escravidão foi boa para os descendentes dos escravos” e que, “o racismo não existe no Brasil”. Como ele é um visível descendente de escravos, e não de africanos escravizados, resolveu ser Capitão do Mato, a serviço dos fascistas que estão governando o Brasil. Embora a Fundação Palmares tenha sido criada para aprofundar a compreensão da nossa tradição africana, o novo presidente acha que isso é tolice, e nega a existência da realidade. A Fundação Cultural Palmares está ligada à secretaria da Cultura, mas o pensamento do seu novo presidente alia-se ao Ministro da Educação, descendente de alemães fugidos da miséria europeia do século XIX, que tem como objetivo por fim à cultura brasileira, essa coisa mestiça. Aliás, neste final de novembro, o ministro, dito da Educação, disse que o ministério da Educação do Brasil não mais participará das reuniões de Ministros da Educação do MERCOSUL, essa entidade que reúne países latinos.
Chama atenção que não mais temos um Ministério da Cultura, uma vez que o objetivo do atual governo é destruir a cultura brasileira, o órgão pretensamente dedicado a cuidar da cultura é, agora uma diretoria do Ministério do Turismo, pois, parece que eles estão entendendo que essa cultura deve estar voltada para os turistas, esse consumidor das coisas que lhe dizem ser cultura. Então a consomem e a expelem, pois são como animais de uma tripa só, como dizem ser o Mocó.

O mês de novembro deste ano vem tendo o seu protagonismo tradicional revivido, pois ele já foi importante em 1937, quando os governantes de então namoravam com a cultura nazifascista, então em plena ascensão. Prova desse desejo de assumir a história, é a proclamação do Ministro da Economia, o que vive reclamando que pobre não tem o hábito de poupar pois come todo o salário, a sua ameaça, prevendo uma possível volta do pior que já aconteceu em um mês de dezembro, o AI5.

Mas foi em abril de 1888, não em novembro, que a família do atual presidente migrou para o Brasil e chegou ao Porto de Santos, fugindo das incertezas econômicas e políticas nos primeiros anos da unificação Italiana. Vieram fazer o Brasil e, para tal estão destruindo o que foi construído antes deles e apesar deles.

Ainda bem que vieram outros, os que constroem.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.