Dia da Consciência

São numerosas as comemorações coletivas que ocorrem no mês de novembro, religiosas, cívicas mercantis e aquelas familiares e pessoais. No mundo do civismo, nessas comemorações que marcam os momentos de escolhas político-sociais, há as celebrações do início a República, da escolha da Bandeira nacional. Essas celebrações quase sempre nos levam ao passados e, como a sociedade brasileira tem pouco apreço por sua história, pois aprendeu que história é coisa que já passou, essas celebrações servem quase que somente para que se diga o que aconteceu, como aconteceu, quando aconteceu e quem fez. Celebra-se o passado, como se a celebração fosse de algo vivido por outros povos. Essas datas estão sendo celebradas de maneira que elas deixam – talvez deixaram a muito tempo – de ser parte da vida dos que celebram. É por isso que no dia que se celebra o início da República, o ministro da Educação faz a celebração chamando o Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República de traidor. O ministro da República do Brasil acusa o fundador da República do Brasil de ser traidor por ter proclamado a República e posto é fim à Monarquia. Sente-se, o ministro, como um príncipe traído; afinal um militar mestiço recusou, à sua maneira, o governo típico da Europa, de onde vem toda família do ministro que parece não ter qualquer traço de mestiçagem, típica do Brasil profundo. Dois dias depois de repudiar a República, o mesmo ministro, no palácio presidencial, faz elogios à bandeira. Este é o estado de esquizofrenia que é vivido no país. Esquizofrenia e catatonia que parece atingir as forças armadas republicanas do Estado brasileiro.

Dor maior vivem os brasileiros que pensam e agem semelhantemente ao ministro da Educação neste dia 20 de novembro, pois é nele que celebramos parte de nossa herança esmagada, esquecida, quase odiada: a nossa herança africana. A lembrança de que o Brasil não seria essa nação rica economicamente, cultural e diversa, sem a participação ativa dos povos africanos que, contra seus desejos, foram arrancados de suas terras e transplantados para este lado do Oceano Atlântico. Ter a Consciência de ser Negro é, ao mesmo tempo, ter a consciência de que, na formação do Brasil os que se apoderaram das terras dos primeiros habitantes, usaram os africanos como animais de carga. Ser posto diante dessa evidência, que foi silenciada ao longo da formação do Brasil, faz doer cada músculo moral que ainda resta e precisa ser restaurado naqueles que herdaram os métodos de recusa da humanidade e, lamentavelmente, se recusam a admitir que cultivam o desejo de manter o processo de animalização da maioria da população brasileira, que, formada principalmente de negros, índios e mestiços de todos os matizes, e todos igualados no processo de discriminação sócio racial. Daí porque nos matam tanto.

A cada ano, se quisermos ser, verdadeiramente um República, a grande data do Brasil deverá ser o 20 DE NOVEMBRO. O Dia da Consciência Negra, o Dia da Consciência do Brasil.

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Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.