Professores e Crianças

Metade de outubro passou e com ele o Dia das Crianças: aquelas que vivem em famílias razoavelmente equilibradas; aquelas que vivem em lares em crise; aquelas que estão sem famílias; aquelas que estão com dificuldade em chegar à escola por conta de confrontos entre policiais e bandidos, bandidos e bandidos; aquelas que são maltratadas por seus familiares; aquelas que foram mortas por balas sem direção específicas e que não se perderam pois encontraram um corpo onde se alojar; aquelas que são bolinadas por parentes. São muitas crianças que vivem em uma infinidades de condições precárias, em regiões sem saneamento básicos e em apartamentos ou condomínios sem saneamentos espirituais. Nem todas as crianças do Brasil têm a oportunidade de frequentar escolas, terem um professor para as introduzir no mundo maravilhoso das técnicas que facilitam o conhecimento do mundo: o mundo passado, guardado nas memórias e nos livros; o mundo presente experimentado no momento que dele e nele se aprende e apreende; o mundo futuro, este criado pela própria criança que vai se tornando parte do mundo que a envolve. Tudo isso pode ser a escola, onde a criança divide o protagonismo com o professor, este bruxo que sabe quase nada, mas como pensa e ensina a pensar, parece tudo saber. Mas só por algum tempo, o tempo que leva a criança a dominar as técnicas que o professor vai lhe entregando, transmitindo e criando.

Ser professor é sempre tratar com crianças, independente da idade cronológica. Claro que cada idade tem suas características específicas e, quanto mais velhas, adultas, mais auxiliam o professor a encontrar novos desafios. Um sociólogo que foi presidente e professor, uma vez disse que “quem não sabe fazer, ensina”, como ele próprio confirmou quando pretendeu, quando presidente, iniciar o ano letivo em uma sala de ensino básico: mostrou que ele não sabia dar aula, mas ensinava e explicava muito bem o sentido de uma aula. Um professor não precisa saber tudo, ensinar tudo. Na verdade o professor, o bom professor não ensina tudo, ele sempre deixa um espaço para que o aluno ensine a si próprio. Esse negócio de professor “dar todo o programa”, programar em janeiro a aula que será em maio, é uma invenção de quem está distante do complexo universo da sala de aula, do imenso campo de relações que envolvem professor e aluno. Exigir que as aulas programadas sejam dadas efetivamente como foram planejadas, é tratar serem humanos como máquinas. Tentaram isso de tal forma que as máquinas passaram a ser modelo para os homens e as mulheres. Ainda bem que que sempre existe a possibilidade do “caos”, a possibilidade do “erro”, pois são nesses pequenos espaços que a humanidade é construída.

As pessoas aprendem quando são “treinadas” ou ensinadas a pensar, sendo que esta é a principal função, o principal objetivo do professor, desde o tempo de Sócrates, que respondia perguntando; de Jesus , que respondia contando histórias. Recentemente, com a formação dos Estados Modernos e Contemporâneos deu-se o fenômeno de tornar o professor um repetidor de alguns dos milhares conhecimentos que a humanidade tem criado. Todos os Estados concentradores do poder exigem que o professor seja apenas um repetidor dos fatos que interessam, e os estudantes sejam aqueles que aceitam tudo o que lhes disserem. Foi assim na civilização chinesa baseada em Confúcio; assim foi na civilização baseada na repetição exata das Surras; nas sociedades europeias pós Reformas Religiosas com os catecismos de Lutero, com as listas de capítulos e versículos bíblicos fundamentais dos calvinismos; assim também é nos catecismo católico-romanos desde Trento; nos manuais dos marxismos totalitários e suas “leis científicas da história e a indefectível relação dos modos de produção”. Nessas sociedades ocorreram reformas cívicas, e aos professores tem sido negado a possibilidade de inovar, de pensar criativamente. No máximo se permite ao professor Re- novar, fazer de conta que se está a fazer algo de novo. Por isso sempre lhe oferecem cursos de “reciclagem”, de “atualização”, de “renovação de práticas”, etc., algo que vai Re- produzir. Casso ele escape daquilo que a instituição na qual ele exerce o metiê de ensinar, e ela perceber que ele está ensinando, inovando, criando, induzindo o aluno a pensar além dos livros de respostas, o professor será castigado de alguma forma por fazer aquilo que é a sua vocação, por se recusar agir como uma máquina repetidora de conhecimento. O castigo vem de diversas maneiras e, não poucas vezes, é aplicado por seus colegas, incomodados por terem entre eles alguém que não pensa nem age como eles agem e pensam; alguém que não faz como eles fazem, que não almeja o que eles almejam, que não forma novas máquinas de reproduzir o pensamento dominante, alguém que entende que ser livre é simplesmente ser livre.

Comecei conversando sobre crianças e cheguei aos impasses da prática da vocação do magistério, que é diferente da ação do pedagogo. Aliás esse tem sido um dos enganos da escola brasileira desde o fim da Ditadura terminada em 1985: transformar professores em pedagogos. Desde então professores passaram a ser visto como “profissionais do ensino”, aqueles que formam outros profissionais do ensino. Foram sendo transformados em clérigos, agentes do saber. não é sem razão o constante crescimento de carga horária para disciplinas de técnicas pedagógicas e a diminuição do tempo para reflexão que permite o aprendizado e não a simples memorização de técnicas. o técnico operário não pensa, opera profissionalmente, apesar do discurso amoroso. É impressionante como os pedagogos dizem instrumentar, e não instrumentalizar, seja o discente, o docente. é sempre um pensamento indecente e escravizante.

Sócrates era Professor, não profissional do ensino; Jesus era mestre, não profissional do ensino e do saber. Os fariseus eram profissionais do ensino, replicadores do que os sacerdotes definiam como digno de ser ensinado, razão pela qual eles nunca sabiam o que dizer das parábolas, das história que Jesus usava para abrir a possibilidade do saber. “Vinde a mim as criancinhas”, vinde a mim os que querem o futuro, não os que querem principalmente diplomas, (estudantes que chegam à universidade apenas pelo diploma não gostam de professores, gostam do que e de quem lhes permitirá alcançar o diploma). Sócrates foi professor de Alcebíades e o mestre Jesus também aceitou que conseguiram diplomas, desde que desejassem ser crianças novamente. Pois só as crianças aprendem o novo

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.