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Outubros

Outubro segue com sua fama revolucionária, com jovens, carregados de esperança e de informações sobre o que se passou, estão sempre em busca de outros outubros, como se esse novos pudessem ser aquele. Mas aquele jamais virá, nem mesmo somos capazes de saber como é que foi aquele outubro de que tanto se fala. Talvez, nem mesmo saibamos o que se passa neste outubro em ocorrem pressões indígenas sobre o governo equatoriano. Além disso este outubro pode vir a ser a confirmação de que o Brasil não consegue garantir a patrimônio que é a Amazônia, pois nunca se desmatou e se queimou tanto, enquanto o presidente continua a clamar que a soberania sobre a região e que, diferentemente do que pensam, ela não é patrimônio da humanidade, é apenas do Brasil. Talvez por isso ele esteja tão incomodado com o Sínodo que a Igreja Católica Romana está a realizar no Vaticano, lembrando ao mundo que a defesa da Amazônia não pode ser apenas a defesa das árvores, mas de todo o ecossistema da região, inclusive dos homens e mulheres que vivem ali, especialmente os povo originários.

A Igreja Católica tem uma longa presença na região, desde os últimos anos do século XV e os primeiros anos do século XVI. Nem sempre a sua presença foi de amizade, apesar do discurso; grande parte da população originária sucumbiu por conta do conceito que a sociedade europeia tinha na época e, claro, sendo a Igreja parte daquela realidade, nela envolvida, carrega as mesmas ideias, além de ter a responsabilidade de ter auxilia a formação de tais ideias. A criação dos Estados Modernos, as relações econômicas, a quebra da cristandade com o surgimento de outros tipos de cristianismo no Ocidente, tudo isso e todas essas instituições também devem recordar e serem lembradas da maneira como trataram essa terra e os seus habitantes. A América, a situação atual da Amazônia não é responsabilidade única da Igreja Católica, embora ela tenha sido força auxiliar do Estado e das classes sociais que inventaram a situação que hoje vivemos.

O convite para refletir sobre a Amazônia neste Sínodo que começou no início de outubro é resultado de uma nova consciência que se tem do mundo no qual estão inseridos a Amazônia e a Igreja. Está ela presente nas ações dos fiéis comuns, esses que a cada ano forma uma enorme procissão de fé em torno de Nossa Senhora de Nazaré, um encontro dos povos da Amazônia, uma síntese da diversidade de crenças que formam esse catolicismo romano/mestiço; também está presente no missionários, católicos de diversos países que se mudaram para viver o cristianismo na verde imensidão que protege povos que nem conhecemos, mas que corre o risco de serem destruídos com as árvores queimadas, com os minérios arrancados de qualquer maneira para aumentar a riqueza dos ricos e promover a pobreza dos pobres. Assassinato da árvores e assassinato do homens e mulheres, os que são originários e os que vieram em busca das origens, viver a sua fé. Nos século iniciais desse contato, a Igreja veio como força auxiliar da dominação, hoje, parte dela compreende que dominação é uma palavra quase diabólica, pois quase sempre é tomada como sinônimo de destruição do outro, submissão. Assim pensavam muitos desde o século XVI, mas mesmo naqueles séculos, sempre havia, entre muitos, alguns que se colocaram a serviço, no limites de seu tempo (os homens e as instituições sempre carregam e sofrem os limites do seu tempo), gente como Pedro Claver, os padres que ficaram com os guarani, pois preferiram obedecer a Deus e não aos líderes da Igreja, ancila dos governos.

O Sínodo convocado pelo Papa Francisco tem causado espanto e horror de governantes que carregam a mentalidade ‘civilizacional’ do século XIX e os projetos econômicos que só conseguem enxergar o cofre, pois que lá estão os seus corações, seus desejos. A estes pouco importa o quanto se mate para garantir mais alguns milhões de dólares e, acusam a Igreja pelo seu passado, enquanto desejam que ela continuasse a ser como no passado, uma Igreja que deixara de ser Católica para ser apenas suporte deste ou daquele soberano. Foi um processo árduo para se chegar a este Sínodo, como está sendo um momento difícil a sua realização. Mas as coisas que acontecem em outubro parece serem dessa maneira. Mas só parecem.

Outubro é tempo da Vitória. Para alguns a vitória de Lepanto; para outros a vitória de Wittemberg; há quem celebre outubro como a vitória dos proletário; tem aqueles que, silenciosamente, lembre o outubro da vitória do Estado Novo. Mas sempre haverá quem celebre a vitória simples de Terezinha de Lisieux; a vitória de Rosa Gatorno, dedicada aos pobres doentes da revolução industrial; a vitória da Irmã Dulce dos Pobres. Os pobres, esses derrotados dos sistemas, queimados como árvores, combustíveis de riquezas e discursos; os pobres que encontraram refrigério na Aparecida nas águas do Paraíba. Os pobres receberam as migalhas das riquezas produzidas pelas revoluções realizadas em seus nome, migalhas recolhidas por Francisco de Assis, também celebrado em outubro.

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