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Em busca de aprender a Primavera

Primeiro dia de Primavera, tempo de renovação da vida, após período das chuvas invernais. Como antigamente objetos básicos para o recebimento das primeiras lições, os livros ensinavam através de fotos ou gravuras, era um tempo de dissolução da neve e florescimento, com abelhas e borboletas bailando nos jardins cumprindo a função/destino, dar continuidade à vida enquanto dela se alimenta. A maioria das pessoas que, vivendo onde eu vivo, abaixo do Equador e entre os Trópicos, liam e aprendiam o mundo com aqueles livros, nunca vira neve; provavelmente quase cem por cento dos que conheceram neve por aquelas fotografias, morreram sem experimentar o toque frio dos flocos em seus rostos. Aprendíamos um mundo dos outros, didaticamente, nos Livros Didáticos. E então veio Paulo Freire nos dizer que Ivo Não viu a Uva, e que todos devem ter uma CA-SA, e para construí-la havia de haver TRA-BA-LHO para fazer TI-JO-LO. Quem trabalha dever uma casa para se proteger da CHU-VA. Atualmente os livros esqueceram Ivo e, embora estejamos produzindo, com muito trabalho, uvas, outras frutas aparecem como mais frequência nos livros. A televisão, nos anos sessenta, mas principalmente nos setenta do século passado. Foram caminhos na direção de entender que a vida do outro não é a minha, mas a vida dos outros afeta a minha vida, assim como o trabalho do pedreiro que constrói a casa para o outro. Ivo agora pode ver a uva, mas nem sempre pode entrar nos prédios que constrói. Coisa de Zé, de Mané ou de Zé Mané, podem dizer alguns.

Neste início de primavera recebo, pelo WhatsApp, vídeos que lembram outra primaveras que apontavam a possibilidade de mudanças reais na maneira de ver e viver o mundo. Um deles vem com a poesia e música de Beto Guedes, SOL DE SETEMBRO, uma explicitação das esperanças que se vivia, quase se percebendo o final da ditadura civil-militar iniciada em 1964; a letra diz que pode vir um mundo nascido do perdão, embora muitos tenham sido perdidos na jornada, mas que já se sabe de cor a lição que ainda precisa ser aprendida. Corria o ano de 1979, sonhava-se com a anistia, a volta dos exilados. Ouvir a música quase quarenta anos depois, nos faz perguntar se aprendemos a lição que já tínhamos decorado.

Outro vídeo, outro recurso didático que me foi enviado é a gravação de 1985, We are the World, iniciativa de Michel Jackson e Lionel Richie, acompanhados de outros grandes do show bussiness, com o objetivo de angariar fundos para ajudar as crianças africanas que, além da seca, sofriam com as guerras, as disputas tribais. Estavam abandonadas pelo mundo. O chamamento para auxiliar os povos africanos foi de uma simpatia enorme e, creio, milhões de discos foram vendidos e enviados para acabar com o sofrimento de milhares de pessoas. Era o prenúncio de uma nova primavera, anos depois daquela ocorrida em Woodstock. O vídeo foi-me enviado, e creio que outras pessoas receberam, chamava atenção à situação/idade daqueles artistas hoje. Michael Jackson e Ray Charles estão presentes em memória, os demais estão entre os 69 e 86 anos. Talvez devessem fazer novo clip para ajudar a África, atualmente saindo de uma “primavera árabe”.

Todos sabemos de cor a lição: se está sobrando em um lugar é porque está faltando em outro. Talvez ainda não tenhamos aprendido, especialmente os povos e pessoas que, vez por outra, reúne-se para uma ação de auxílio. Caso de decoração, não de aprendizado. Um dos meus leitores haverá de dizer que é porque não foi ensinado aos africanos, e a outros povos do mundo, o valor da ganância, do ato da acumulação, da gula. Talvez essa lição seja a que tenha sido aprendida, ao longo da história humana a caminho da humanidade. Mas não dá para todos acumularem. Enquanto isso, o inverno continuará a produzir o frio e, também, o sonho da primavera, onde veramente iremos primar pelo homem e humanidade.

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