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O Dia do Frevo

E então o Dia Nacional do Frevo foi criado com o objetivo de preservar, senão a dança, ao menos a sua memória. E também a sua preservação em uma sociedade que muda tudo muito rapidamente, que tudo esquece, pois tudo parece já está memorizado em algum canto de algum chip, guardado em alguma nuvem. Assim são guardadas as ideias, as palavras escritas por conta dessas ideias que surgem quando as coisas são vistas e analisadas. As palavras são, ou podem ser, o estacionamento das coisas, ou seu esquecimento.

Frevo é uma palavra que, segundo estudioso das brincadeiras dos adultos recifenses, apareceu em um jornal recifense em um dia de fevereiro de 1907. A palavra dizia de um movimento dos corpos das pessoas que ouviam a sonora de uma orquestra, e não se sabe bem se os corpos seguiam os sons que os corpos faziam, ou se os músicos produziam sons acompanhando os movimentos. De alguma forma, a palavra frevo representava no início do século XX a folia, a loucura que fervia nas ruas do Recife, então vista como uma “cidade sangrenta” por conta do alto índice de violência. Era a violência diária e a violência extraordinária que vem das paixões, as do coração amante e as dos amantes da política. Em qualquer caso, a cidade fervia, ou “frevia”, por isso o frevo do povo entusiasmado à frente ou atrás da orquestra do clube de sua preferência. Tomavam a rua, tocadores, frevistas, desfilantes dos clubes pedestres, como se dizia então, para diferenciar dos clubes que desfilavam nos seus carros, o famoso “corso”, onde os ricos da cidade mostravam os mais recentes automóveis, carregados das moças e rapazes de suas famílias, antes de irem aos clubes onde os seguidores dos clubes pedestres não conseguiam entrar. Assim, podemos dizer que o frevo pouco tem a dizer dos desfilantes do corso que faziam guerras de serpentinas, confetes e cheiravam o perfume que vinha das lanças argentinas e os deixavam embriagados, ou como se diz: numa boa.

O dia do frevo, esquecido permanentemente durante o ano, nas rádios e nos bate-papos das esquinas. O frevo durante o ano torna-se assunto para intelectuais que não o dançam, e podem até escutar. Mas há quem diga que não é música para ser tocada no Teatro, é dança de rua, dança do povo. Um frevo jamais será um Beethoven, um Villas Lobos. Pode ser tocado nos salões durante os carnavais ou, no final das festas que ocorrem nos clubes sociais durante o ano, mas só na última hora, quando a bebida já fez esquecer a “classe”.
Mas é bom que haja o Dia do Frevo, o Dia do Maracatu, o Dia do Coco, o Dia do Xaxado, para que não se esqueça dele, como já ficaram esquecidos o Maxixe, a Bazurca.

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