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Capangas da elite

Qualquer pessoa de bom sendo pode vir a se perguntar como se explica que tanta riqueza produzida no mundo e tantos sem riqueza alguma. Às vezes a situação de pobreza é tão grande que, quase não se percebe humanidade em tanto sofrimento. E, de outro olhar, também temos dificuldade de perceber a humanidade em setores e pessoas que vivem em meio a tanto luxo e riqueza. A extrema pobreza e a extrema riqueza material não podem ser própria da humanidade. Não da humanidade para a qual parece que sempre rumamos. Aquela percebida por Teilhard de Chardin na Missa sobre o mundo, celebrando o Cristo Cósmico. Não foi ele o primeiro a enunciar esse desejo de felicidade completa dos homens, um sonho explicitado por Isaias, o profeta que enunciou a paz entre o Leão e o Boi, a criança e a serpente. Mas como explicar tanta miséria que, para alguns é resultante do trabalho que um homem rouba de outro, apropriando-se totalmente do que o outro produziu, apresentando como justificativa o fato de que ele colocou algum capital, sem perceber que capital, aquilo que resta após a satisfação da necessidade, já é resultado de uma apropriação anterior, de um não dividir. Observamos essa situação em todas as sociedades humanas até agora, esta exploração não é exclusividade de nossa civilização, mas o sonho é que todos saiam do reino da necessidade, não viviam sob o jugo da fome e da miséria. É disso que tratam os sonhos dos religiosos e dos não religiosos que se esforçam para construir a humanidade completa

Uma vez li de um intelectual paraibano/pernambucano da sua surpresa diante da beleza do Maracatu Rural na cidade de Tracunhaém, ele ficou admirado por um povo tão pobre fazer tanta beleza de cores e alegria. Quando li as suas linhas pensei que a exclamação poderia ter sido: depois de tanto anos e séculos de exploração que fazemos, como podem esses trabalhadores rurais, submetidos a situações tão vexatórias para a humanidade, como podem eles ainda viverem e sonharem com tantas cores e alegrias. Joaquim Nabuco, também membro da oligarquia que tem feito a miséria dos que produzem a riqueza no Brasil, já percebia que a riqueza consequente do trabalho escravo não faria uma nação plena, mas subjugada pelo medo. Desses dois membros da oligarquia que inventou e domina o Brasil podemos dizer que o queriam diferente. Josué de Castro, Jessé de Souza de Souza são outros que apontam as razões de miséria material da maioria dos brasileiros e a miséria moral da minoria que se apropria da riqueza e da alegria do povo.

A oligarquia e seus acólitos que formam a “elite do atraso” procuram manter-se discreta e não explicitar a sua miséria moral. Mas nessas últimas décadas ela tem perdido a vergonha, o pudor. Esta segunda semana de setembro as flores do pântano resolveram mostrar-se em sua grandiosidade. Assim tivemos a atuação de pessoas que formam a família de serviço da elite, confundindo-se com ela. Descendentes de imigrantes que fugiram da miséria italiana, mostraram-se indispensáveis para os donos do poder e, surpreendendo a muitos, agem como sendo quatrocentões, com o despudor dos que não fizeram o curso de civilização por inteiro, mas foram bons alunos de cursos de atualizações. Deram para apresentar-se em hospitais e reuniões da mesma forma que os barões de açúcar, café e cacau faziam: de pistolas na cintura, de maneira ostensiva. Na mesma semana um disse, e outro justificou, que a democracia não trará as mudanças que o Brasil precisa. E disseram isso com a mão próxima a pistola. Claro que setores mais civilizados da elite, com mais tempo e traquejo na arte de iludir, saíram a apagar o fogo e minimizar o que foi dito. Quase pediram aos capangas para não estragar o prato que estão preparando para si. Outro deslize foi dado por um bacharel de Direito que se tornou procurador da República, fazendo questão de dizer que “infelizmente não sou de origem humilde(,,,) não estou habituado a tantas limitações” enquanto reclama seu salário base de R$24.000.00, mas, com as vantagens que criaram para eles mesmos, seu ganho mensal se aproxima de R$80.000.00. Ele não suporta ganhar o miserê de vinte quatro mil reais.

São relances da Elite do Atraso, gente rica de dinheiro e miserável de humanidade.

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