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Economia global se conjuga com criação cultural

Termina o mês e ocorre o fim do semestre, o primeiro deste ano de 2019, e coincide com a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o MERCOSUL. De um lado 28 países avançados na tecnologia, na cultura, centro do que costumamos chamar de Civilização Ocidental, e que formam a segunda economia mundial, de outro lado, quatro países em constante desenvolvimento (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai), mas com atrasos tecnológicos; dois desses países estão em crise econômica e política. Como se sabe, o MERCOSUL formado por países com culturas diversas, mas formadas com a matriz europeia conjugada com culturas indígenas e africanas, amalgamadas em processo decorrente da expansão dos europeus ocorrida a cinco séculos. Coisa típica de nossa época, um dos signatários, o atual presidente brasileiro, não dos que cultivam a visão globalista. A redação final do acordo, bem como as explicitações de seus pormenores, além de sua prática, é que demonstrará se ele servirá para alçar esses países do sul da América a um patamar que garanta melhor qualidade de vida para seus membros, ou se será um capítulo tardio da política mercantilista.

Este semestre, em minhas aulas, foi dedicado a estudar aspectos da cultura pernambucana, procurando entender sua diversidade no território e, como a sua formação esteve ligada aos processos históricos de desocupação/ocupação do território, que promoveu a extinção de aspectos culturais enquanto ocorria a formação do que hoje chamamos cultura pernambucana, mas tendo em vista jamais afastá-la de suas relações com os demais grupos da humanidade da qual faz parte. Todas as criações culturais são filhas do tempo histórico, da grande história.

Assim é que as tradições “tipicamente pernambucanas” são recentes, quase bicentenárias, mas nelas podemos encontrar o que chamo de ‘sobrevivências medievais’, aqui chegadas nos tempo modernos da Revolução Mercantil. Muitas das tradições trazidas pelos portugueses foram deixadas no passado, ainda que as cores do Pastoril, da Guerra entre Cristãos e Mouros, continuem a aparecer. Afinal, as cores podem receber novos significados, podem ser culturalmente lidas, de acordo com as novas organizações sociais. Mesmo em solo conservador, as mudanças ocorrem.
Buscando escapar da armadilha que o tempo semestral ergue, começamos estudar Pernambuco a partir do Sertão, seguindo conselho de Capistrano de Abreu, deixando os caranguejos e siris para o final. E então ocorreu que não sobrou tempo para refletir sobre as manifestações culturais da Mata e do Litoral, apenas as mencionamos, e vimos que os estudantes cuidaram de, em seus artigos finais, fizeram a reflexão dessas experiências culturais mais próximas, ao mesmo tempo em que se assombravam com a riqueza e produção cultural que ocorre no Agreste e Sertão do Estado.

Embora quase bicentenária, as expressões tipicamente pernambucanas, começaram a ser vistas como cultura na segunda metade do século XX, mais especificamente após 1960. Aliás, os anos sessenta foram decisivos para a superação de conceitos definidores do belo/feio, não apenas em Pernambuco mas no mundo ocidental, como ocorrera no início do século XX. Entre nós, essa explosão cultural foi a descoberta de um povo em constante movimento, um povo sem terra em busca de um lugar, no mangue ou nos morros.

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