Migrações, tem sido a caminho da humanização – sobre mamíferos e amor

Escuto, vejo e leio nos meios de comunicações as diferentes maneiras de como estamos caminhando em direção do passado. Não é um caminho que negue as conquistas do conhecimento, da ciência, da tecnologia. Nessa direção há avanços cada maiores e mais sólidos, embora não estejam ao alcance de todos, pois que assim acontece desde o domínio da fabricação do fogo. Do domínio do conhecimento e da técnica; que tem este domínio promoveu controle dos demais homens que formam a sociedade. Mas desde então, também, aconteceu o descontentamento com tal situação e, o longo processo de humanização é o caminho de compreender e realizar que o saber é construído coletivamente. A invenção da técnica de fazer fogo não foi resultado da observação de apenas um indivíduo, como não o foram as demais invenções ocorridas desde então, admitir essa ideia é que nos faz civilizados. Somos o conjunto, não o indivíduo.

Neste longo percurso fomos aprendendo a solidariedade enquanto aumentávamos as possibilidades de sobrevivência individual e coletiva. Foi assim que superamos práticas como o infanticídio, o abandono dos velhos, dos doentes, dos mortos, etc. E criamos instituições, filosofias e teogonias para justificar a nossa humanidade, buscando diferenciarmo-nos das demais criaturas. E nos dissemos diferentes de todos e com poderes sobre toda natureza, nomeando-as e dominando-as, pondo-as ao nosso serviço, seja para nossa proteção, seja para auxiliar na produção e alimentos, no encurtamento das distâncias, na diminuição do uso de nossa força e mesmo no esforço de guerra contra os nossos semelhantes que julgamos nossos inimigos, exatamente por causa das filosofias que criamos para nos “humanizarmo-nos”, civilizarmo-nos. Interessante é que, depois dessa longa caminhada na direção a humanização, criamos uma sociedade que nos desumaniza, pois que busca criar mais diferenças, que julgamos inaceitáveis, em oposição ao espírito que nos tornou seres culturais e tão semelhantes nas ações e iguais na biologia. É isso que nos mostram as ciências, o conhecimento que criamos. Mas, eis que aprendemos ser mais fácil cultivarmos a indiferença na relação com os nossos semelhantes.

O noticiário desta sexta feira (14/6) nos dá conta de que a lei Anti-imigração do presidente dos EUA promoveu a separação de uma criança de 4 meses de seus pais. Eram estrangeiros buscando um melhor lugar para a sua família crescer, como fez Abrão e sua mulher Sara, e fizeram José e Maria e seu filho recém-nascido, de acordo com a Bíblia. Essa e outras histórias nos lembram que desde o primeiro grupo humano, o que mais fazemos é migrar, é buscar outro lugar para completar a vida. As migrações quase sempre ocorrem por causa de um sofrimento insuportável, provocado pelas forças da natureza ou sofrimento provocado pela ganância que a guerras. Ao longo do tempo tentamos superar o medo do outro, desse que vem de longe em busca da paz que nosso lugar parece ter. E foi assim que formamos nossa civilização. Entretanto, após termos criado um mundo de tanto conforto, nos descobrimos insensíveis, incapazes de compartilhar. E provocamos dores imensuráveis em nossos semelhantes, dores como separar um casa de suas crias, seus filhos. A ciência nos ensina que todos os seres vivos sentem o que se passa ao seu redor (ciência não é só matemática), os mamíferos em especial, mas não apenas eles – ou nós.

Mas o que está escondido na notícia é que uma família aceitou ficar com a criança enquanto seu pai era deportado, assim como na ditadura argentina, famílias aceitaram ficar com os filhos dos prisioneiros da guerra que os generais travavam com parte do povo argentino. O que causa mais tristeza é que isso incomoda tanto a sociedade quanto incomodava a sociedade romana as crianças abandonadas nos lixos ou entregues para piratas. Em reação a esse costume um grupo assumia essas crianças, preservando a vida e abrindo caminho para os direitos humanos que foram sendo criados no processo civilizador.

Cuidemos para que essas criações humanas não sejam perdidas e nos tornemos seres de sangue frio, esses que cuidam apenas da continuidade biológica e não da cultura (arte, técnicas, religião, ciência, valores, etc.)

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.