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As décadas de cada dia

Colocar um ponto, não o final que tudo acaba, mas um que marque o início de algo novo. É o desafio que acontece a cada manhã, construir o dia. Atividade corriqueira, difícil da qual não se pode fugir, pois cada momento carrega a sua surpresa. E, mesmo tendo consciência dessas artimanhas que a vida oferece, saímos do sono, sonhando dirigir a vida. E então fazemos, de novo o que foi feito ontem, mas ontem foi realizado de modo diferente e, no entanto, o resultado é quase o mesmo, pois o café tem o mesmo sabor de ontem e, embora o ovo pareça o mesmo, sabemos que foi outra galinha caipira que o pôs. E faz cinquenta anos que puseram o corpo do padre Antônio Henrique Pereira Neto, ainda com um fiapo de vida em uma rua lateral da Cidade Universitária. Meio século, e parece que quase nada mudou, uma vez que tem gente no poder agora que, naquele tempo estava aprendendo “velhas lições”, entre elas não “morrer pela pátria’, mas por ela matar, mesmo sem razões, exceto aquelas que a maldade faz enxergar como boa.

Oito anos depois daquele 29 de maio de 1969, a rotina da maldade dos torturadores reaparece na cidade do Recife, dessa feita sobre o padre católico Lawrence Rosemberg e o missionário menonita Thomas Capuano, que, no seguimento de Jesus, viviam com os miseráveis, invisíveis famintos das ruas do Recife, juntando restos de verduras, legumes, abandonados nas feiras, para fazer sopa para os jantares. Tal atividade foi sustada pela prisão e consequente espancamento desses religiosos, extremos seguidores do ideal de serviço aos menores. Surpresa dos torturadores que se depararam com a realidade de serem eles cidadãos dos Estados Unidos. Em seu zelo na realização do mal, criaram um incidente na política internacional, exatamente quando visitava o Brasil o presidente dos Estados Unidos e sua esposa, a qual veio ao Recife conferir a situação de seus concidadãos. Após essa ação, o governador de Pernambuco, Moura Cavalcanti e o presidente Ernesto Geisel, não mais puderam dizer que mentia o arcebispo de Olinda e Recife: a tortura existia e era praticada nos porões dos quartéis das Forças Armadas e nas delegacias de polícia, nestas, sofriam os mãos pobres e sem proteção que famílias de classe média-média ou média alta, podiam oferecer aos seus filhos insatisfeitos com o regime. Quando tais fatos ocorriam, o atual presidente do Brasil, era oficial do exército e adepto do uso da tortura, como demonstrou mais recentemente, quando deputado, homenageando um dos maiores torturadores, o coronel Ustra, em ação naquele período. A violência e a tortura, essa violência sistemática, planejada e executada com requintes de maldade, tem sido uma das faces da cultura brasileira, que a praticou sobre índios e africanos escravizados, mais tarde sobre os pobres deserdados, exilados da cidadania em seu próprio país.

Ao acordar não sabia que escreveria tais palavras, embora soubesse que deveria escrever, pois que minha alma estava em angústia na manhã. Mas foi no final da tarde, após as aulas sobre a cultura pernambucana, em conversa com essa moça, sentada à minha frente e que trocava conversava com os olhos querendo saber quem eu era e, eu por outro lado, sentia ser ela alguém com que vivi uma experiência, mas não lembrava qual. Então ela pergunta sobre o ITER, o Instituto de Teologia do Recife, lembrando que faz trinta anos que aquela escola teológica foi fechada por ordem vinda do Vaticano, da Congregação dos Seminários, com o aval da Congregação do Santo ofício, em agosto de 1989. Essa foi a aventura, ela lembrou que era estagiária de jornalismo e que acompanhou entrevista minha a respeito da decisão do Vaticano e posta em prática pelo novo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho. E conversamos sobre o momento atual de nossa sociedade, e percebemos que sentimento semelhantes ao que sentimos passados, trinta, quarenta e dois ou cinquenta anos. Até achamos que, se Dom Cardoso fez o serviço que o conservador João Paulo II desejou realizar no Recife, desmontando o novo “jeito de ser igreja”, uma igreja comprometida em buscar a justiça e, ao menos minorar o sofrimento do povo; parece que o atual presidente, no campo laico, ou mesmo em certos espaços religiosos, parece ser o emissário de Trump para desmontar os Direitos conquistados, em nome da acumulação de riqueza por alguns, garantindo que a miséria crescerá. Um “jeito velho” de produzir sofrimento e dor.

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