Lembrando a juventude, lembrando Padre Antonio Henrique

Eram Tempos difíceis e terríveis os que vivemos faz meio século. Muitos de nós não tínhamos ideia de que estaríamos escrevendo ou lendo linhas como essas que estou cometendo. O futuro era algo muito distante para nós, pois havia uma propaganda governamental que dizia: “o futuro chegou”. E o que vivíamos era uma insegurança sobre o que nos aconteceria e a pessoas de nosso relacionamento nos momentos seguintes. O Maio de 1969 foi bastante trágico para quem vivia entre os 17 e 27 anos de idade. A sombra do Ato Institucional de número 5 pairava sobre a nossa juventude e nossos sonhos. Queríamos mais liberdade, queríamos mais escolas, queríamos mais alimentos para todos, especialmente para os mais pobres. Queríamos muito viver. E, como dizia poema canção de Paulinho da Viola, “viver não é brincadeira não”. Mas havia alguns que estavam satisfeitos com o futuro que a Ditadura lhes garantia; para alguns bastava o alimento para o corpo e nem notavam que “dinheiro na mão é vendaval”, que ventos fortes produzem destruição. Esses felizes jovens entendiam que aqueles de sua idade que entendiam que “a vida não é somente isso que se vê, é um pouco mais que os olhos não conseguem perceber, que as mãos não ousam tocar e os pés recusam pisar”, eram ingratos com um governo que “estava colocando o brasil no caminho do progresso, do desenvolvimento”, que estava havendo um “milagre econômico”. Assim é a juventude, assim é a história dos homens, sempre há insatisfeitos e, também os indiferentes, os que diziam: “é tempo de Muricy, cada um cuide si”.

Faz cinquenta anos que havia uma grande ebulição social, pois havia muitos sonhos, diferentes sonhos, entre eles o sonho que não poderia aceitar um “Desenvolvimento sem Justiça”, título de documento da Ação Católica Operária, que também já chamava atenção para o fato de a situação imposta pelos que chegaram ao poder em 1964 estava criando uma situação inaceitável: “Nordeste, o Homem Proibido” denunciava que a ganância não permitia uma vida decente para todos, que os nordestinos estavam sendo desumanizados em benefício de um modelo econômico que apenas visava o lucro, o prazer de alguns. Essa situação angustiava a muitos. Muitos jovens se reuniam para conversar, ficar juntos, pensar como não ser seduzido pelas facilidades que lhes ofereciam pelo seu silêncio, para que não denunciassem a injustiça que se cometiam nas periferias, com o declínio das escolas públicas, com o fechamento de indústrias, com a perseguição aos estudantes, com a repressão. Outros jovens apoiavam a repressão, viviam dos lucros das injustiças. É assim a história da humanidade, é assim a nossa história.

Além do metralhamento da residência do arcebispo de Olinda e Recife, ocorrida em abril, no mês de maio de 1969 dois fatos que atingiram fisicamente dois jovens: Cândido Pinto de Melo, estudante de engenharia e presidente da União Estadual dos Estudantes, e o padre Antônio Henrique, que acompanhava jovens secundaristas no Colégio Marista do Recife, além de atender jovens residentes no bairro do Parnamirim. Cândido Pinto ficou paralítico, o padre Antônio Henrique foi torturado, morto e jogado em uma rua ao lado da Cidade Universitária. Foram dias difíceis para todos: para os criminosos que não podiam negar o cadáver, a tortura, mas como controlavam os meios de comunicação (ou deles recebiam apoio) cuidaram de manter tudo em silêncio. Entretanto todos ficaram sabendo das atrocidades corridas entre os dias 26 e 29 de maio. no silêncio dos jornais das emissoras de rádio e televisão, o cochicho nos ônibus, nas igrejas, nas filas, nos mercados gritou para o mundo o assassinato realizado e o silêncio cúmplice das autoridades e dos felizes com as injustiças. Por isso uma multidão se formou e caminhou desde a matriz do Espinheiro até o cemitério da Várzea. Em duas ocasiões agentes do Estado tentaram tomar o caixão da mão do povo que, cantando o litúrgico “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” ou o Hino Nacional Brasileiro, resistiu e levou seu mártir até o campo onde o deixou e, em silêncio, sem aceitar qualquer provocação, fez-se ouvir por aqueles que tinham ouvidos para ouvir. A morte é o fim para quem dela vive, mas quem ama a vida e a constrói nunca morre.

Faz cinquenta anos, e continuamos a construir o sonho de uma sociedade justa para “o homem todo e todos os homens”, cmo diz a carta de Paulo VI sobre o Desenvolvimento dos Povos. Os que usam as armas para destruir as juventudes, para impedir a felicidade ainda estão a nos rondar, desejando nos enredar. Mas continuamos a acreditar que “o mundo será melhor quando o menor acreditar no menor”.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.