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SANTA ZITA, a empregada doméstica

Santa Zita, a empregada doméstica

Chegamos ao término doe abril. Neste sábado o catolicismo lembra uma mulher que viveu no século XIII, sempre na cozinha e nos espaços internos de rica família italiana, uma doméstica, cuidadora da casa dos outros. A memória católica lembra seu desapego pelos bens, sua generosidade que, por muitas vezes foi fonte da inveja de suas companheiras, sempre dispostas a dizer aos seus patrões que Zita havia dado algo da cozinha, que saíra do trabalho para cuidar de doentes, que dera roupas a pessoas que pediam agasalhos. Santa Zita é pouco conhecida dos católicos no Brasil, embora seja popular na Inglaterra. Talvez seja porque no Brasil não tenhamos essa atividade, empregada doméstica, em nossa sociedade e os padres resolveram não lembrar que gente pobre pode vir a ser santa, e parece não ficar bem colocar gente não aristocrática nos altares. Mesmo agora nesse tempo de Opção Preferencial pelos Pobres, Santa Zita pode não ser um bom exemplo, pois ela não se reunia com as amigas para promover ações sociais libertadoras, preferindo cuidar dos mais pobres que ela, diretamente e não através de entidades como as Irmandades e Confrarias, tão comuns em seu tempo. Mas não havia confraria das que serviam nas casas aristocratas e preparavam a casa enquanto eles cuidavam de frequentar igrejas, e mosteiros. Bom, mas hoje é dia de Santa Zita, que se fez santa por sua dedicação ao seu trabalho e aos que careciam de assistência que não lhes era oferecida pelas instituições. No final de século XIX, várias mulheres – virgens, casadas e viúvas – criaram instituições para atender os “rejeitos da revolução industrial”, mas então eram novos tempos, com a miséria mostrando outras faces e exigindo novas santidades.

E Santa Zita não carregava a ´preocupação de, a cada abril, apresentar declaração do imposto de renda, pois no seu tempo o Estad,o como o conhecemos ainda não havia se formado; a vida social parecia mais simples e a caridade, ou seja, o cuidado para que não houvesse a morte pela fome, indigência ou velhice desamparada, deveria ser exercida por cada um e pelas famílias. A Previdência era entregue à Providência Divina e o sofrimento poderia ser visto como um castigo. Férias anuais não ocorriam, mas os dias festivos ofereciam possibilidade de descanso para os que faziam parte daqueles segmentos sociais que não careciam trabalhar com as mãos. Nos dias de festas, como hoje, Zita e suas companheiras estavam atentas para que a fartura da casa viesse a ser vista e experimentada pelos que frequentavam a mesa. Nesse sentido, pouco mudou nas relações, agora supervisionadas pela estrutura do Estado que exige certos limites, como não morar no local do trabalho, não trabalhar todos os dias da semana nem todas as horas do dia. Hoje consideramos isso “trabalho análogo à escravidão”; nossa sociedade não admite que haja escravos produzindo riquezas, essa situação tão comum nos Tempos Modernos, aqueles chegados após o tempo no qual Santa Zita viveu.
Os tempos Modernos, como se aprende em nossas escolas, são aqueles que terminaram com as revoluções burguesas europeias, e que podem ser vistos como o tempo da negação da humanidade do outro, embora fosse bem comum o interesse de reduzir tudo e todos à experiência europeia, que nunca foi uma única experiência. A diversidade de experiência religiosas na Europa foi transportada para outras regiões do planeta e, de acordo com o grau de resistência, foi imposta ou assimilada, e contudo todos e tudo era reduzido, entendido, vivido na perspectiva moderna. O que não era moderno não existia e, caso viesse a tentar existir, era eliminado. Assim agiram os europeus de Portugal, Espanha, Holanda, França, Inglaterra. A modernização do mundo fez crescer o número das Zitas na Europa, mas nas Américas, Zita, Mulher livre que saia de sua casa para cuidar da casa de outras pessoas, não existiam entre os séculos XVI e XIX, e quando começaram a ter presença na sociedade, eram tratadas de forma “análoga” à escravidão.

Hoje são muitas as Zitas no Brasil, agora protegidas pela legislação do Estado, pouco respeitada pelos que continuam a enxergar o trabalho manual como vergonhoso, ainda que seja o trabalho em sua própria casa. Paga-se pouco às companheiras de Zita no Brasil, assim como se paga pouco aos que trabalham, como Santa Zita trabalhava, para a satisfação dos que empenham seu tempo para fazer o homem moderno faz: acumular riqueza, embora já nem saiba o que tem, exceto no final de abril, quando o contador, alguém que trabalha para ele, lhe apresenta a relação de seus bens, para que ele diga ao Estado o quanto tem. As companheiras e companheiros de Santa Zita, não precisam apresentar declaração de bens ao Estado, ele sabe que eles nada possuem, senão a vontade de trabalhar para continuar a viver.

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