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Os supremos e Nossa Senhora de Paris

A segunda semana deste mês de abril nos trouxe possibilidades várias para nossa compreensão como parte do Ocidente, da cultura ou civilização ocidental. No Brasil tivemos o insólito comportamento de dois ministros do Supremo Tribunal Federal em protagonizar a tentativa de retorno à censura prévia às informações. Em defesa de interesses particulares, e mantendo uma tradição patrimonialistas do Estado, confundiram o juiz com o tribunal. Se nos primeiros dias seus colegas ficaram silentes, ao longo da semana, ao sentirem a reação dos cidadãos e da imprensa, ao menos dois juízes saíram, publicamente, na defesa da liberdade de expressão. Os demais, dizem, cochichavam nos corredores, mas não vieram a público apresentar sua discordância com seus companheiros aloprados. Depois de ter recusado a orientação da Procuradoria Geral da República, o juiz relator, mais vocacionado para delegado, suspendeu a censura que havia imposto à revista semana, digital, Crusoé. Mas ficou evidente que existem pessoas que desejam retornar ao período anterior ao Iluminismo, às revoluções democráticas que tornaram o Ocidente esse espaço de debate e, em consequência, de criatividade e liberdade. Mas também esclareceu-se que há quem deseje a liberdade com mais entusiasmo.

Mas o Ocidente, a Civilização Ocidental, não é apenas uma criação dos filósofos dos séculos XVII e XVIII; como nos ensinaram os mais antigos, “somos como pigmeus assentados em ombros de gigantes”. A cultura é acumulativa, cada geração posterior criando a partir da criatividade e resolução dos mais antigos. Livro sagrado dos cristãos nos lembra que ‘o homem sábio tira de seu baú coisas novas e velhas”. Apesar da feroz crítica iluminista, dos séculos XVIII a XX, o cristianismo não pode ser descartado nesse processo de construção da civilização ocidental. A má consciência europeia quase a faz jogar fora a criança com a água suja. Desde a Guerra de 1914, quando a “Europa perdeu a sua inocência”, vem se fortalecendo a tendência de negar a herança cristã europeia, como se tivesse sido possível tantas criações e indústria sem o esclarecimento do livre arbítrio que povos europeus universalizaram, embora ainda não de todo. As mortes geradas pelas guerras cientificamente dirigidas para alcançar objetivos definidos do sistema industrial, parece terem servido para esquecer que toda história, não apenas a do Ocidente, é feita de sangue humano, além do de animais e plantas sacrificados para a vida humana. A crítica constante às instituições europeias relativizaram o que a Europa gerou. “Tudo que é sólido desmancha no ar” reza famoso opúsculo do século XIX, profetizando o fim da sociedade baseado no indivíduo; “Deus está morto” avisou aquele outro ou não sentir-se confortável em um templo cristão onde ainda se cultuava como no século XIV, e sacerdotes discursavam sobre uma simbologia que pouco dizia ao homem envolvido em conviver com maquinário e com os novos saberes da sociedade resultante da junção do matemático com o engenheiro; enquanto alguns morriam do trabalho outros começavam a morrer de tédio por nada fazer, o filósofo gritava a morte de Deus, teólogos dizia que as igrejas eram o túmulo desse deus; o romancista previu o fim da catedral sob fogo, agora quase concretizado. E, o monumento mais visitado, fez-se vivo, renasceram sentimentos múltiplos, inclusive com jovens e velhos de terços nas mãos, rezando publicamente na cidadela do processo laicizador ocidental. A queima da Notre Dame de Paris dá-nos ver o sólido de oito séculos desvanecer-se no ar e, ao mesmo tempo ver, nas ruas parisienses, solidificar-se uma tradição que parecia morta.

Notre Dame de Paris é a Nossa Senhora de todos os lugares para onde fora, enviados cristãos com mensagens que, em seu tempo julgavam ser o melhor. De Paris, onde foi um dia entronizada uma deusa da razão, saíram outras razões para a fortalecimento da Europa, com muitos enganos e muita confusão entre o que seria o desejo dos homens e a vontade do Deus que cultivavam. Em uma sociedade que tem dificuldade de assumir seu passado, sabendo-o causador de dores a tantos povos, seria mais simples aproveitar a oportunidade e cobrir as cinzas desse passado nos escombros de uma velha catedral, mas, tais cinzas são dos corpos que geraram a Europa, sua cultura, seu pensamento, sua alma. As chamas que queimaram a Catedral de Nossa Senhora de Paris, reaqueceram o amor pela tradição europeia, até mesmo naqueles que desejam, ou anteveem o seu final. Daí o desejo de reconstruí-la, restabelecer fisicamente o símbolo da Europa, cristã em sua base formadora. Uma pena que este desejo não se apresente também na reconstrução da base amorosa do cristianismo que, em suas diversas tendências, poderiam fazer nascer os momentos mais radiantes da vida humana.

E tão pouco que se precisa, apenas ganhar um pouco menos, abrir mão das riquezas e deixar que as graças, como as da Senhora de Paris, sejam derramadas sobre o mundo

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