Patrono dos Direitos Humanos

“Quanto mais escura for a noite, mais bonita será a madrugada.”

Fui dormir com essa ideia, essa lembrança após saber que deputados escolheram Dom Hélder Câmara como patrono dos Direitos Humanos, no Brasil. Todos os que vivemos seu tempo, os que tivemos o privilégio de o ter conhecido e, mais ainda, de ter estado ao seu lado, sabemos que esta foi uma justa escolha, ainda que outros brasileiros poderiam ser escolhidos. Neste momento lembro Heráclito Sobral Pinto (1893-1991), advogado que, utilizou as leis que defendem os animais para obrigar a ditadura do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, permitir a defesa de Luiz Carlos Prestes, permitir que o prisioneiro fosse ouvido e levado a um julgamento honesto; e fez isto não porque o prisioneiro houvesse pedido (afinal um comunista ser defendido por um “papa hóstia”!!!), mas porque o senso que deve orientar a vida de um homem, especialmente se houver tido a oportunidade de ter estudado as leis, a vida de um advogado deve ser orientada pelo senso da justiça. Mas ainda hoje homenageiam o ditador, a que cognominaram de “pai dos pobres”, ao mesmo tempo que escondiam dos pobres as maldades cometidas por “seu pai” e seus auxiliares, esses que receberam benefícios da ditadura pelos serviços gentilmente prestados. Muitas foram as mãos e muitos desejos do mundo ficaram imobilizadas para que a ditadura de Vargas fosse mantida e ainda hoje festejada. Heráclito Sobral Pinto poderia ter sido o escolhido para ser o patrono dos Direitos Humanos, pois ele defendeu a dignidade humana antes mesmo que a Organização das Nações Unidas fosse criada e viesse a consagrar o direito de defesa, o direito de que cada pessoa possa ter uma voz que a represente nos tribunais. E ele fez isso gratuitamente.

Outra personalidade que poderia ter sido escolhida é o cardeal Dom Evaristo Arns (1921 -2016), o Dom que o povo de São Paulo recebeu e que chamava de “tio” o Dom que Pernambuco ganhou. Dom Evaristo afrontou a ditadura civil-militar, à época dirigida pelo general Ernesto Geisel, abrindo as portas da catedral de São Paulo, no intuito de ser o espaço para cultivar a memória de Vladmir Herzog, jornalista assassinado em uma das dependências do exército, tornando pública a responsabilidade do Estado pelo crime, pelo assassinato de Herzorg, e o fez ainda que o assassino fosse o poderoso Estado. E sua catedral se tornou o local dos crentes de todas as crenças. Dom Evaristo alimentou a esperança que gerou a compilação dos crimes da ditatura civil-militar que prendeu, torturou e matou, em livro Tortura Nunca Mais. A tortura que foi denunciada internacionalmente por Dom Hélder Câmara em palestra pública na França, o que lhe valeu o ódio de todos os torturadores; de todos os falsos patriotas que sujam, com o sangue de seus compatriotas, a bandeira que dizem defender; Dom Hélder ganhou o ódio de todos que sabiam do que estava acontecendo, mas, por questões de governabilidade’ silenciaram e assistiram silenciosamente a pena de morte social que a ditadura civil-militar impôs ao arcebispo de Olinda e Recife. Sim, Dom Evaristo Arns poderia ter sido o escolhido, pois com o silenciamento imposto a Dom Hélder, tornou-se a Voz dos que não têm voz, levantou, terna e fortemente a sua voz contra setores poderosos do Estado brasileiro e de grupos de sua própria Igreja. E manteve-se firme na defesa dos Direitos humanos

Vivemos agora um novo tempo, um tempo que deseja emular as ditaduras pretéritas, a quem rendem glórias e afagos; vivemos um tempo no qual os dirigentes eleitos escolheram como heróis os torturadores, um tempo de um governo que tem uma ministra, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, que, penso, imagina-se ser Maria Antonieta por terem lhe dado o nome da Imperatriz do Brasil e confunde a brasileira com a Austríaca que foi feita rainha da França. Maria Antonieta, ao saber que a população de Paris estava revoltada por conta da falta de pão, o alimento diário dos pobres de Paris e toda França e Europa, teria dito que o povo, na falta de pão, comesse brioches. Esta a arrogância do, agora antiquíssimo Regime. A arrogante ministra da agricultura do atual govermo disse, em sessão na Câmara dos Deputados que “nós (o Brasil) não passamos muita fome, porque nós temos manga nas nossas cidades, nós temos um clima tropical”, sugerindo que a população saia às ruas, jardins, plantações e busque tal fruto para garantir a sua sobrevivência. Esquece, tal senhora, que caso o povo siga seu conselho bobo, será vítima da lei que protege a propriedade. Tal é a arrogância dos poderosos, dos que jamais viram o povo, (quando o encontra não percebem além do que dele pode ser retirado para sua conta bancária). As palavras dessa ministram mostra a sua mente oligarca, de uma oligarquia nojenta e, caso houvesse uma pessoa decente na cadeira de presidente da República, esta senhora com mentalidade do século XVIII já estaria demitida. Mas, talvez que ali hoje se senta, pareça ser como Luiz XVI, que, embora tivesse inteligência dos acontecimentos, preferiu seguir como os antigos. Se for assim, precisaremos muito de olhar como agiria o nosso Patrono Nacional dos Direitos Humano para evitar tragédia.

Mas foi um imensa felicidade, neste início de ano, a publicação dessa homenagem a Dom Hélder, pois ela nos alerta que devemos continuar nesta caminho da defesa dos direitos dos homens diante da maldade.

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.