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Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.

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